Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

09 outubro 2006

Crônicas

Femininas


Para isso servem as mulheres: para desiludir nossa solidão com a sinceridade das suas presenças; para encher de vida nossos sonhos; acudir, com a alegria do seu riso, o tormento infeliz da nossa tristeza.
Servem para erguer nossos olhos na pesquisa perdida d’alguma esperança, por mais que remota. E para provocar nossa reação no ato duma nova queda, erguendo, mais que corpos fortes sob o transe da fragilidade, almas alquebradas e espíritos destroçados.
Servem para despertar sabores, e odores, no fato certo do seu beijo, ou no ocasional medonho da sua recusa. Para enobrecer os lares, fazendo-os lares, incontestavelmente lares. Para iluminar os dias com o som gostoso do seu riso, enchendo de graça as tantas horas que por fim encurtam esses dias.
Servem para ilustrar poemas, e amenizar a rudeza dos tempos, volta e meia num descompasso pavoroso e chato. Para dar sentido às coisas, para justificar as coisas, fazer com que aconteçam. Para atestar o amor. Ou dar fé ao seu fausto.
Servem para completar e decidir. Para manifestar-se com a postura dos olhos, a expressão dos braços, a aparência do rosto. Para tornar branco mesmo o domingo mais vibrantemente vivo com a largura do seu sorriso franco e honesto. Para entristecer lua e estrelas com a ventura duma lágrima discreta vertida no resguardo indevassável dum lavabo ou no recôndito do seu mistério.
Servem para humanizar o mundo com a força da sua doçura. Para convencer aos abandonados da transitoriedade do seu instante. Para ser objetivo e destino, razão e desejo, sonho e dádiva, prêmio e fundamento. E para que todos tenhamos em quem nos apegar na passagem dos nossos pavores e receios.
Servem para esgotar a capacidade de pensar, tão infinda nos poetas, na tentação descontrolada da sua homenagem, e para desafiar os que se pensam capazes de consegui-lo sem palavras. Para divulgar o amor e sua valia; para desfazer o silêncio do silêncio, e para dar vida à vida.
Servem para descontrair a maçã hirta do rosto do tempo, desde o instante em que nascem, princesas que se tornam rainhas, e que ao morrerem legam aos homens a dor da solidão, sonhos sem cores, a tristeza impiedosa, o desamparo trágico, a desesperança, o desânimo, lares retorcidos, dias frios, tristes, silenciosos, longos como a tarde de sol em brasa, insuportável, sem rumo, azedo e sem brilho.
(PAULO CHAVES – 08.07.05)






Psicoterapia


Naquela manhã solene de agosto, não precisei pedir ao pássaro que cantasse, e preenchesse de alegria as horas solertes do meu tempo. Quando dei por mim ele já cantava sua melodia bela, e passeava no meu imaginário, freqüentando as árvores que criei no pensamento, conquanto não pudesse ir à rua, espiar a flora que supunha existir nos arredores.
Ao sair, no entanto, não vi pássaro algum. Nem árvores, nem silêncio. Ouvi claramente a gritaria nervosa dos carros, uns com sons mais graves, outros nada. Tranquei os ouvidos e me pus a velejar pensamentos entre os automóveis que se entendiam não sei como nas poucas ruas centrais da cidade.
Recobrei o pássaro na memória. Tornei a imaginar árvores frondosas, pés de algaroba, acácias, amendoeiras enormes, mangueiras improlíferas, por onde o meu pássaro firulava, espargindo alegria no povo lá abaixo à procura de sombra e encosto. Em recíproca, garotos sem alma e pontaria perseguiam-no, baladeiras em punho, pedras de fogo e petecas, com o sentido da perversidade temperando-lhes os olhos atentos, arregalados.
O pássaro? Esqueci por instantes, mo vexame de alcançar o ônibus, entregando sua sorte ao descuido de minha mente egoísta, urbana, até resgatá-lo, sim, com vida, da mira dos seus predadores. Ileso, ganhou o mundo em rasantes por sobre os mares, igual à gaivota luminosa, ruim de pesca, coitada, que outro dia apreciei da fila do banco.
Já meu pássaro, vez por outra ressurge, saliente, grato por jamais lhe abandonar à própria sorte, e canta pra mim, só pra mim, cantigas perfeitas como só um pássaro imaginário é capaz de fazê-lo.
(PAULO CHAVES – 16.02.05)