Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

25 setembro 2006

A QUE PONTO CHEGAMOS


Conheço meu estado quase inteiramente. A trabalho, em carro particular, percorri de canto a canto essas nossas cidades paupérrimas, dum povo sofrido, esquecido das providências governamentais.

Nessas andanças conheci de verdade o que é pobreza. O que é fome, o que é abandono, o que é miséria, o que é viver entregue à própria sorte, e o que é a falta de perspectivas.

Na solidão de nossas estradas esburacadas verti anonimamente alguns litros de uma lágrima triste, honesta, sem gosto de poesia, sem perfume, sem o constrangimento das platéias – homem não chora! – solidário com meu povo.

Por dias sua imagem me roubava o apetite, o sono, o pensamento, a atitude.

Impotente para modificar tal paisagem, mudei em mim o que podia. Melhorei como pessoa, modifiquei meu drive comportamental, inserindo nele todas as acepções lícitas do termo Cidadania. Superei as lições religiosas e passei a olhar as pessoas como irmãs legítimas, merecedoras, todas elas, de mais respeito. De todo o respeito. Tornei-me, em essência, generoso com os indefesos. Só com eles.

Foi por isso que bati e bato boca com muita gente, que se acha acima dos outros nas cidades todas pelas quais passei e passo, em defesa do homem humilde, da criança pobre, da gente miserável que está plantada no meio do nada, num estado gigantesco, fodido de tudo, de tudo, de tudo.

Gente que de tão humilde e esperançosa, se furta o direito de ter direito. Que sorri vontadosa para os olhos dos visitantes ilustres – governantes de merda que se aventuram de avião, vez por outra, por aquelas bandas, deputados safados que furtam dali dez por cento de comissão na verba solta, prefeitos infames que desconhecem os próprios conterrâneos, puxa-sacos circunstantes que se fazem de companhia no périplo inconseqüente, em nome de diárias gordas, dentre mais.

Na bagagem que amealhei na passagem pelas cidadezinhas, povoados, currutelas, ajuntamentos e aglomerados sub-humanos deste Piauí imenso, como imensamente pobre, me contorci de curiosidade para saber como fazem estes excluídos, nas suas dores de pobres – nó nas tripas, baldeamento, tonteira, gastura, dor nas juntas, ardência nos olhos, dor nas partes, “farnelzim” – se o posto de saúde não existe ali por perto, nem ambulâncias, nem telefone para acioná-las, nem doutor residente, nem remédio que cure, nem máquina de exame, nem estrada para andar depressa, nem luz pra correr no mundo.

E as crianças que vi, sem escolas, e as que as tinham, sem professores, sem merenda – exceto o q-suco mal coado -, sem cadeira, livro, luz. No presente, o futebol com a bola fuleira dada pelo vereador malandro, ou pelo pai mais folgado, o dia todo. No futuro, o cabo indelicado da enxada, da foice, do facão, da cavadeira pra arrancar pindoba.

Ah, aqueles idosos nas pontas de rua, nas portas dos bancos, nas sombras de casa com vergonha do seu tempo.

E os que não se banham, não bebem água tratada, não lavam suas roupas, suas tralhas, suas coisinhas tão simples, porque não têm sequer um veio dáqua perene. E ainda há os que inspiram poeira o tempo todo, nas ruas nuas, sem esgotos, sem calçamento, sem iluminação, sem vantagem alguma dia ou noite.

É por esses que eu torço. Para que tenham um mínimo de dignidade, uma condição humana de vida, respeito, cidadania – quer dizer, direitos.

Por essa razão, me dói ligar a tv, abrir jornais e revistas, e me deparar com propagandas “institucionais” de governos (ou de governantes) que fazem um barulho danado para dizer que meteram asfalto em estrada tal, levaram água potável a cidade tal, reformaram uma escola na cidade qual. Esquecem, de propósito, que isso tudo não é coisa do outro mundo, porque nossa Constituição – lei mais importante e desrespeitada do país - é bem clara quando diz que “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”.

O Estado falhou no seu papel gerencial. É uma fraude. Uma ilusão de gestão.

O povo que dele tudo espera, não.

Permanece lá, acocorado, esperando, degustando a poeira da estrada, enquanto isso...





Frases


Li essa frase numa camiseta, outro dia, e gostei. É de Thiago de Mello:

“Não tenho caminhos novos para te oferecer, mas um jeito novo de caminhar”.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Paulo, tudo isso é de cortar o coração. Infelizmente está aí bem em baixo de nossos olhos e aqueles que poderiam fazer alguma coisa, simplesmente viram o olhar para cenários mais bonitos e que possam lhes render mais e mais dinheiro. Étriste, mas é a realidade. Também fico indignado com tudo isso e me sinto tão impotente porque apenas minhas palavras nos veículos de comunicação, soam solitárias nesse mar de corrupção e safadeza que, como todo oceano, não tem fim.

Quanto à Constituição, tem um texto lindo! Muito bem redigida, foi promulgada com festa (lembro disso muito bem, estava em BSB cobrindo para a extinta TV Pioneira) mas, infelizmente é tratada como se fosse apenas um pedaço de papel sem valor algum.´Não é apenas a lei mais desrespeitada do Brasil, mas a mais pisada e rasgada também.

Um abração e obrigado pela visita lá no COL. Vou colocar um link lá para seu blog.

segunda-feira, 25 setembro, 2006  

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