CONVITE
A crônica a seguir é um convite a que pensemos bem, desde hoje, em quem vamos depositar domingo, 1º de outubro, não somente as nossas, pessoais, mas as esperanças de todo o país, formado em sua maior parte por pessoas pobres e largadas aí pelas esquinas da sorte. Boa leitura.
A GENTE POBRE
Era uma rua desamparada. Aliás, rua é expressão mera da bondade de quem a define, posto que nunca se elevou além da condição precária de vereda aberta ao percurso pleno dos seus moradores infelizes.
Na sua integridade não havia luz pública, a mais das lamparinas a querosene, que fugia sem certeza de dentro dos casebres, uns de palha, outros de qualquer coisa. Fora esta, tudo era turvo e negro como o dia seguinte do seu gentio. E era este o horizonte, entre sete da noite e quatro e meia da madrugada – quando o turvo era irretocavelmente turvo. E seus sons, particulares, diferiam dos que se podia ouvir nos lugares onde a sorte sorri mais amiúde.
Ao revelar as cores, o sol iluminava antes de qualquer outro, o desespero. Nas veredas, a misturar-se com o cheiro bom do orvalho novo do novo dia, das plantas baldias molhadas pela frescura d’aurora, subia no ar o fedor medonho do desagradável: fezes, urina, de lama abraçando baratas clinicamente mortas, borra quase branca de café, rescaldo de fumo mascado e cuspido, de água suja de banho-de-cuia, de lavação de sexo, de pasta de dente usada, de sabão de coco... Tudo escorrendo entre capins diversos, malícias teimosas, flores comuns do lodo, e o verde abusivo da paisagem maldita.
E por essas paragens passavam meninos, e meninas, na carreira louca a caminho da escola, com o pensamento amputado das lições-de-casa, vibrante, todavia, no sabor da merenda, aventurando palpites sobre o teor do cardápio. Algo irrelevante para quem, como os quais, têm fome. E nos seus pés molestados chinelas remendadas, de borracha, em maior pontuação, uns até de cor alternada, até de número alternado, até de dono alternado, mais para complementar o figurino do que para proteção da criatura frágil.
Antes, junto e depois da meninada, adultos também caminhavam por essa estrada, sob os mesmos riscos, com os mesmos pés, mas sem a mesma sorte da merenda mais tarde. Por destino, em geral, a perseguição do nada, do acaso, na informalidade, mais do que trabalhista, das suas próprias vidas. Por isso, uns corriam os olhos sem muito interesse nos carros dos outros, outros os lavavam, e outros os roubavam. Uns levavam recados, outros limpeza, outros beleza. E mulheres que passavam, cozinhavam, vendiam, pediam, faziam o possível, ainda, pela vida.
Nas casas, na concepção formal do lar, parte roçada da área útil lhes servia de calçada, havendo nalgumas o plantio protegido das árvores de sombra, teimosas para vingar, que no futuro produtivo haverá de ter a serventia prática do converseiro, e das tertúlias funestas regadas a cana e fumo. Transposta, dar-se-á o visitante na sala infame, de chão batido, de paredes nuas, quando não caiadas, mostrando macabras o produto dos seus recheios. Nestas, tortos e pendentes, retratos flácidos de alguns artistas – cantores baratos, atores hipócritas, políticos picaretas e outros que de tão ordinários, nem qualificação têm. E imagens de santos, dos que concedem graças nas moléstias aos que ajudam na transposição do aperreio. A se destacar, Nosso Senhor Jesus Cristo, bonitão, olhar perdido no tempo/espaço, como que vislumbrando solidário a vida triste e escanteiada daquela gente. No seu peito santo, o coração exposto já não brilha, como em outros lares, inibido pela ação torrente do tempo, ou pela inércia dos homens que podem, ou mesmo pelas condições normais de conservação e limpeza, temperatura e pressão.
Espalhadas pelo espaço partes mutiladas de bonecas outrora belas, e tamboretes inóspitos para agasalhar as visitas. A janelinha – 40 x 50 – deixava penetrar, de um lado, a luz do dia, atenuando, do outro, o cheiro forte da pobreza que ali se fabrica. Ao se olhar para cima, num gesto errado, politicamente, a palha seca, surrada muito de muito sol, em sociedade e parceria com lonas negras, chapas com notícias do passado - rejeitos de material off-set -, papelões de geladeira triplex, e telhas transparentes para dar luz. Guerra é guerra!
Da parede obviamente lateral, uma fenda vertical do alto a baixo, tampada por uma cortina suja que já foi lilás, nos seus tempos áureos de mocidade, dá a idéia dum corredor, se não é. E vem a seguir o bequinho mínimo revestido de nada, que permite o acesso ao primeiro quarto, onde cinco baladeiras cruzam-se enroladas, numa trama de cordas inacreditável. E nada mais que isso.
Logo a seguir, noutro compartimento, a mobília autoriza a dedução de tratar-se do principal, onde dormem os pais. A cama feia, rebaixada, com seu colchão de palha ondulado, recoberto pelo chenille velho, furta-cor, sobrevive escorada ferozmente por toras de madeira resistente e pedras remoldadas, achadas nos esmos. O arcabouço do armário já sem portas, e suas partições pendentes, deixam ver o ror de panos ajuntados, amolambando o que talvez ainda possa ser usado. A mala velha, entreaberta sobre ele, preservando das fatiotas só as melhores. O espelho quebrado e desigual, portátil, pendurado no vazio da contra-parede, não reflete fielmente quem se lhe olha: parece roubar a expressão de quem lhe ri. Também por ali, entocados, vidros de loção de cheiro falso, estonteante, bandeiroso, mesmo.
Mais pra’diante, a cozinha. O par de bancos a rodear a mesa curta, malemolente, faz medo ruir. Um pote idoso, desgastado, a sustentar em seu beiço a concha emersa no seu teor suspeito, refresca a água que elastece o bucho de quem a bebe. Os fogareiros improdutivos, aquietados sobre a bancada arranjada – o caixotão do que já foi um bom fogão – aguardam a hora de funcionar. E as panelinhas, de opções restritas, se dão à guarda duma tripeça desengonçada, onde também são postas canecas empenadas de alumínio ordinário, copos improvisados de garrafinhas pet, objetos descartáveis reciclados na marra, em si mesmos, e bacias reutilizadas pela boa vontade dos novos donos, a se fazerem de pratos. Em latinhas, pequenos frascos e púcaros baqueados, repousam esquecidos temperos e tais.
Próximo, mas fora da habitação lamentável, o banheirinho deprimente, com seu espaço de lavação e asseio, e a área infecta da fisiologia. Tudo aberto ao tempo, sem teto ou privacidade, cercado em semicírculo pela palha esparsa e seca do carnaubal. Por ali, disperso, o lataral de apoio ao acúmulo funcional da água certa de todo dia. E ao redor de tudo, mato.
Nas horas fatais do dia, sempre uma tentativa imaginosa de enganar o que não pode ser enganado. Cuscus liguento, banhado no azeite do coco babaçu, e uma água-preta meio amarga, a título de café, quebram o jejum de praxe, embora não habilite ninguém à robusteza da luta. Vezes raras, pães dormidos, duros de morder, beijus rancentos de farinhada, e, na pior das hipóteses, lechos desacompanhados de q-suco. O feijão, em gritante inferioridade numérica, servido só o cheiro, em caldo profuso, e o ardiloso ardor da pimenta perigosa, despejado nas cabaças trêmulas, sob a companhia pontual da farinha multimídia. Para fechar o dia, já noite, antes da reclusão certa ao leito possível, frutas fáceis, de época, e o RA – resto do almoço – cada vez mais raro.
Dentre as pessoas, entre o som e o silêncio da noite, o que é particular é o gemido da dor, que dói na alma do pai, da mãe, do irmão que compreende; que dói no corpo do pai, da mãe, do irmão que compreende e também do que ainda não compreende nada. É o grito do desespero, do medo da hora, do amanhã, do talvez... É o estouro da irracionalidade, quando a paciência falta na prateleira da razão, quando o dia não foi bom, e também o ontem, o anteontem... É o desencontro dos interesses, a fragilidade de todo e qualquer argumento, e por fim a entrega às ilusões, ao perfume traiçoeiro do veneno, aos atalhos para o precipício. É uma sensação ruidosa de um adeus final, lamentoso, doído, consciente e cerimonioso que os cidadãos acenam, envergonhados e derrotados, aos obséquios da cidadania. (14.04.2006).

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