DA TARDE E DA VIDA
Dentro da vida não passar de um sonho, como o sopro breve da manhã tranqüila, recatada no seu obséquio de beleza, expressiva ocasião da esperança animadora do futuro mais próximo.
Existir...
A partir da notícia da vida, só há vida. Vida predita nos festins familiares, nas parcerias da escola, nas companhias das ruas, da intimidade, da individualidade. Vida sentida nos conjuntos independentes de coisas da vida. Das impressões de cada um. Das observações de cada um. Das leituras de cada um.
É como sorrir. É como chorar. Ninguém vive na iminência eterna das lágrimas, mas do seu sorriso. Não há como supor honesta, contudo, a lágrima que cai treinada, predestinada. Do sorriso, sim, depreende-se algo alentador no seu esboço, ao menos, apesar do risco certo duma falsidade embutida.
E lágrimas são longas. Talvez porque desagradáveis, ao revelarem tristeza. Talvez porque indigestas, por seu sabor salgado. Talvez porque deformadoras, na sua impostação facial. Negativas, afinal.
A manhã tranqüila, subventilada, passa. Nalguma lembrança há que se mostrar saudade, tempo de reanimar com graça as coisas da vida havidas no seu transe aberto. A tantos se reformará um sopro breve de felicidade, passado vivo na impressão semi-esquecida que cada qual transporta no seu íntimo. A outros, dor.
Um sorriso espontâneo e uma lágrima espontânea não se atritam. Não disputam vitória no campo emotivo de quem quer que seja. São reações, que cabem na postura dos honestos quase na mesma medida, e podem enfim ocorrer num tempo só. Há que se considerar a loucura dos sentimentos, o descontrole natural, o transe trágico e doloroso de um dado momento. Loucura eterna, não.
Um sonho findo, quando era bom, é triste; quando era triste, é bom. Pois a alegria é quem anima a vida de todos. Tem seu valor próprio, e seu valor agregado. É natural. A tristeza também é assim, quando anima o curso redentor dos mais fortes, que por ela não se abatem, nem tombam pelos quarteirões prováveis, derrotados. Neste caso, um forte “só” tem valor.
Enquanto sentimento, alegria e tristeza são essenciais. Normais quando se revelam no tempo certo. É quando se tornam suportáveis. Não a alegria, que é querida na cronologia do sempre; mas verdadeiramente a tristeza, quando intempestiva, é pavorosa.
Existe íntima a relação entre vida, sorriso, felicidade, alegria. E também entre morte, lágrima, depressão, tristeza. Algo mais que simples antônimos que contrariam a expressão adequada da escrita, mas que, acima de tudo, contrariam o sentimento.
A grande ironia da existência impede que se conheça o seu transcurso. Não há como assimilar certas coisas, como explicá-las, como entender para aceitar. Assim como o dia. Já aprendemos a interpretar seu ciclo. A entender e aceitar que as manhãs passam, aninham-se nas tardes, que se findam nas noites confusas que madrugam conjugadas. Já aceitamos que o dia se acaba porque sabemos que todo dia ele tornará nascer, sempre com o mesmo vigor e euforia. Já aceitamos, até com lauta expectativa, que a tarde cai para a noite, não sem antes nos apresentar a magia do sol poente, espetacularmente lindo e pontual. E os luares prateados em meio à escuridão azulada, e mais estrelas do que podemos contar. Sem falar dos invernos chuvosos, diluviais, que ainda assim nunca inibem a certeza de que amainarão, uma hora, ou que de fato não são eternos.
Dos mistérios indecifráveis dessa vida há que se saudar a ignorância com que contempla a todos com sua fina ironia. A ninguém ainda foi dado o saber da sua jornada. De onde se vem e para onde se vai. Por que se vem e por que se vai. Nem quando.
Isso induz à crença do sopro. Induz a pensar que sendo manhãs, todos passaremos breves e felizes para o incerto da tarde, nascidos aos poucos, mansamente, amadurecendo na curtição do tempo, brilhando com efusividade na tarde ardente, e perecendo festivos na deposição do sol. Infelizmente sem argumentos para dizer se renascidos na manhã seguinte, imediata, como o faz o dia.
Talvez, sabendo-o, não houvesse mais qualquer prazer no pôr-do-sol. Ou na alvorada... (17.06.06)
(ESCRITA EM HOMENAGEM AO BUSSUNDA, POUCOS DIAS APÓS SEU ENTARDECER)

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