A SENTENÇA MORTAL
E por fim tombou irreversível em seguida ao disparo. Agonizou por instantes na naturalidade do chão, como que ironizando seu desconforto evidente.
O marginal, embora sem pressa, esqueceu de levar consigo o anel expressivo da formatura distante, que agora esvazia seu valor enquanto jóia no dedo mínimo da vítima importante. De valor algum como lhe ficou, aliás, a casa bela, de varanda longa e piscina; os carros negros e as motocicletas velozes; os relógios suíços e as vestes esporrantes de luxo e gosto; a mulher linda e o saldo bancário extraordinário.
Sua memória, ao revés, ficou cara. Indignaram-se os que nunca lhe tocaram a mão, os amigos, e a família, com a selvageria dos dias de hoje. E a Polícia se desfez em eficácia, engradando, rápida, o meliante.
Nas cercanias do poder decidiram dar seu nome a certa rua – a bem da verdade, por agora, só um vão desimportante duma vila qualquer! Outros mais falaram do extinto no microfone do plenário – todos de bem. O padre, num testemunho vacilante, encomendou aos céus, no sétimo dia, clemência a tal ovelha. E nuns, mais, a saudade doeu com força.
Passada a comoção, e a citação recorrente, soltaram-lhe o algoz. E seu verdugo, de fato, passou a ser o sistema.
Na terceira noite da liberdade, o rapazinho tolo se desespera com a indigência. Aprecia o tráfego inteiriço das motos voadoras, e se morde de raiva por seu impedimento e pobreza. Não processa na urina sua impossibilidade: ao contrário, atiça-se objetivo para conseguir seu ardente desejo. E se droga dos meios mais loucos. E se atira na ilusão. À sua frente, feito alvo, o súbito, inocente como é bem comum aos súbitos, às vezes pai, filho, irmão, amigo, patrão, empregado, marido – e até tudo junto – que recebe voz de assalto. Ora se anulam, ora reagem. No mais dos casos, nem importa: o marginal atira. E a vítima tomba irreversível, sem vida.

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