Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

09 novembro 2006

COISAS DA MÍDIA


Quando o rádio AM era a mídia principal da nossa eternamente quente Teresina, nutri um grande hábito ao seu pé, por muito tempo: ouvir o programa do Garrincha nas tardes de domingo, intitulado “Um prego na Chuteira”. Em especial nas vésperas de Rivengo.
Admiro o Garrincha, pseudônimo do velho e bom Deusdeth Nunes. Lembro da sua Folha da Mãe Ana, n´O Dia, suplemento humorístico do qual participava também o Zevilson – outro “caba véi” desmantelado. Despertei ali uma vocação para a graça que nem prosperou assim, posto que minha comicidade é de sátira, e sátira no Piauí não é bem recebida porque todo mundo se sente ofendido e passa a se dedicar à perseguição dos seus críticos. Sempre foi assim. Faço-as no resguardo da informalidade, nas conversas fraternais, que é pra não correr riscos.

Bom, tudo isso pra ressaltar três aspectos de uma situação – o da publicidade, outro do Garrincha, e mais um de certa e especial pessoa.

O da publicidade diz respeito ao processo de fixação das mensagens de um modo inapagável. O programa do Deusdeth existiu ali pelas coxas de 1980. Quase trinta anos atrás. Até hoje ecoa nos meus ouvidos, ao menos, algumas das paródias que compunham o bestiário. E, por isso, dou aqui meu testemunho de que o rádio é também uma mídia excelente.

A do Garrincha é quanto aos tipos, pessoas e coisas que eternizou. Criava chavões para patrocinadores “virtuais”, lisos, que não tinham como arcar com o ônus do investimento publicitário, digamos assim. E funcionava, dando resultados comerciais aos “comerciantes”.

Já a certa e especial pessoa se trata da Dona Maria Divina.

N’Um Prego na Chuteira, o apresentador dizia que o programa era um oferecimento do Pastel da Maria Divina. Tinha um textinho: “Pastel da Maria Divina – Comeu... (entrava uma nota no violão) TOOOOIM - Morreu!!!”

Conversei um tempinho com ela hoje pela manhã. Pôxa, como invejei aquela disposição.

Dona Maria Divina é uma senhora de mais ou menos um metro e setenta de altura, e conta exatos 79 anos de idade. Ano que vem, logo em fevereiro, entra nos 80 anos. Contou-me que todos os dias, de segunda-feira a sábado, sai de casa, ali pro lados do Marquês, e vai para o centro da cidade vender seus pastéis – de carne, queijo e “pimenta”, que é como chama o de carne bem apimentado. Não me disse quantos produz e põe à venda, mas me disse que só volta prá casa depois que vende o último, “nem que seja fiado”. Que tudo o que conseguiu na vida foi o pastel que deu, embora venha recebendo aposentadoria – resultado de anos de contribuição – há uns vinte e poucos anos. O tempo de pastel é maior – são 55 anos ininterruptos.

Rapaz, que mulher disposta. Vai chegar aos 90 anos carregando sua cesta de pastel. Com certeza. E me confidenciou que sua saúde só tem um probleminha com o colesterol, que não é muito baixo, porque só gosta de comida pesada: não relaxa mão de vaca, panelada, cozidão, essas coisas. Esse negócio de purezinho, de creme de galinha, daquelas coisas bonitas de mesa bacana não é com ela.

Olha, 55 anos fazendo uma coisa só, todos os dias – a bem dizer, é impressionante. E o desejo de continuar? Tenho para mim que isso já passou ao vício, à mania, algo incorporado à naturalidade de viver. Não notei desânimo na sua voz. Ao contrário, ressaltou seu bom humor, sua certeza de que no final do dia vai levar pra casa seus trinta, cinqüenta reais, e a cesta vazia. Aliás, dia que acaba às três da tarde, ao esclarecer que antes ia ao centro pela manhã e à tarde, mas que agora, devido ao calor, “só tira um expediente”.

Que lição, Dona Maria, que lição.

Fiquei pensando depois, sozinho, que se o Garrincha não tivesse levado Dona Maria para o Um Prego na Chuteira ela teria passado em branco, anônima como um pássaro migrante. Talvez não tivesse resistido tanto tempo no ramo. Nem feito o sucesso que faz. Angariado a estima de tantos; despertado a curiosidade de muitos. Pagado rente e quente seu “INPS”, e garantido a tranqüilidade da pensão, da aposentadoria, que ela refuga em transformar na fonte única dos seus proventos.

Na luta, ativa e determinada, Dona Maria Divina segue vendendo seu pastel, que, até onde se sabe, nunca matou ninguém.


Paulo Chaves

3 Comments:

Blogger NIVALDO RIBEIRO said...

Eu só prova VIVA de que o pastel da D. Maria Divina não mata! Quando estudava no extinto colégio Maria de Lurdes, no centro de THE, consumia de forma voraz os pastéis que ela vendia sempre aproveitando a saída dos alunos alí em frente à Praça da Bandeira. Fico feliz em saber que ela, hoje aos 79, continua em forma.

domingo, 12 novembro, 2006  
Blogger Paulo Chaves said...

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segunda-feira, 13 novembro, 2006  
Blogger garrinchapi said...

Caro Paulo Chaves, deparei-me com o seu blog e me emocionei com o artigo da Maria Divina. Muito bem escrito e muito realista. Vou por na minha coluna. Abração do Garrincha e não se esqueça: ComMaria Divina é assim... Comeu ! Pum ! Morreu.

domingo, 25 novembro, 2007  

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