Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

29 outubro 2006

UMA CRÔNICAZINHA

AS BODAS


Amanhã vou casar.

Quero festa, flores para perfumar todos os ambientes, gente muita para testemunhar as cenas, parentes, amigos, mesmo que não sejam aqueles de fé, que a cada dia diminuem mais em quantidade e qualidade.

Quero um juiz avexado, que pergunte logo se aceito ou não esta outra condição de casado. Que não se conforme com o atraso da noiva, nem repita a ladainha da intolerância. Que se retire, conveniente, ao garantir no seu livro o autógrafo dos padrinhos. Que nem brinde, nem faça piadas, uma vez despido da toga expressiva.

Mas quero padrinhos alegres. Que bebam comigo até que sequemos a última garrafa do melhor dos meus vinhos. Ou que tombem embriagados pelos tapetes da sala, e beijem seus filhos, cumprimentem os empregados, me abracem em sinal de intimidade, mas que não maculem o véu solene da minha noiva, com carícia, palavras, atitudes exageradas.

Quero zoada. Meninos correndo atrás de meninas, gritinhos, algazarra e folia – alegria, pois afinal é festa. Gargalhadas, riso aberto, sem medo, sem culpas. Comida à farta, músicas delirantemente belas, fartura de tudo.

Quero um tempo mágico, como se estivesse parado, sem obrigações, sem pressa. Um tempo de dia nublado, ameaçando chover, fanfarrão. Onde os pássaros sejam mais amigáveis; o vento seja mais envolvente, lento, propositivo. E o coração de todos mais honesto.

Quero uma noiva impecável, como se nunca a tivesse visto antes. Que falasse menos do futuro e dos outros, e me cobrasse menos, e me alentasse mais com seu sorriso, com seu olhar de paixão. Que me cantasse nos ouvidos a paz da sua alegria, e se fizesse presente sem impor seus caprichos, suas insatisfações. Que me trouxesse aos lábios sempre um prenúncio de riso ao manifestar seu amor, movimentando os olhos, as mãos, os cabelos, a ponta da língua entre os dentes.

Pois é. Quero uma festa pra sempre. Não pelo caso simples de sua folia, mas pela simbologia enorme da sua passagem, pelos fatos que ambienta, pelas sensações que anima. Quero que este momento fique e pronto: nunca se acabe, porque depois de amanhã – ah, depois de amanhã começará a vida sem graça de toda a vida.

(EM HOMENAGEM A OSCAR NIEMAYER - 98 ANOS, QUE ACABA DE ANUNCIAR SEU CASAMENTO, PARA BREVE, COM VERA – 60 ANOS, SUA SECRETÁRIA HÁ 03 DÉCADAS)