Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

21 dezembro 2007

MATURIDADE

Demorou um bom tempo, mas afinal chegou.

Naqueles tempos mais agitados, uma sexta-feira era uma festa sem hora para terminar. Porque outra sexta-feira levava muito tempo para se repetir. Vinha, com certeza, mas demorava pra caramba.

Batia boca com todo mundo. Desrespeitava o silêncio do inocente e também do pecador. Era dono de uma verdade que nem sabia mesmo se existia. Gostava da polêmica, mas só eu tinha a razão.

Mulheres? Queria a todas, e ao final, nenhuma. Eram passageiras. Todas passageiras. Interessantes, perdiam suas qualidades num improvável terceiro encontro. Eu não: era o must, era “o cara”.

Faltava dinheiro para uma ou outra atitude? Não era problema – a cara-de-pau conduzia a extensão da mão para os amigos, os conhecidos e, se duvidar, até para os inimigos. Tudo em nome do prazer.


Quando a glória dos 45 anos chegou, compreendi logo o que era, de fato, prazer. Como um sabor novo que se descobre na surpresa do acaso, absolutamente imprevisível, espantei-me com a primeira reação: quis preservar para a eternidade a sensação recente. Por que, meu Deus, querer perpetuar uma sensação?

O correr do tempo também ganhou uma textura nova. Cada minuto passou a ter uma importância singular. Não como o último, imaginável, mas como “o minuto”, aquele momento em que de olhos abertos, vivos, consciente, você olha para o céu azul, imenso, num dia lindo e ameno de sol quieto, e sente como se os olhos de Deus te olhassem, carinhosamente. Um dia saboroso, por certo.

E as pessoas, merecendo de você um respeito sem medida, real, como deve ser entre os seres humanos, entre os iguais, os que desejam para os outros tudo aquilo que desejam para si mesmos. Que bom. Que bom tocar as mãos das pessoas, olhando em seus olhos, de coração aberto. Que bom poder oferecer a elas de forma igual os benefícios que as melhores pessoas nos proporcionam. Que bom sentir a atenção dos outros, e a eles também oferecer idêntica atenção. Que bom poder facilitar o dia-a-dia de alguém, independente da relação fraternal que persegue os fatos.

Aprender com os outros, sem debates raivosos, sem trocar ofensas, agressividade. Reunir em torno da voz um raciocínio lógico, o afeto e a receptividade mágica que nos declara aprendizes dessa transição. Ouvir, ouvir bem mais do que falar. Pensar antes de dizer. E ao dizer, estar convicto de que as palavras terão alma e bom senso, de que produzirão efeitos, e efeitos positivos, proveitosos, evolutivos.

Os dias, esses passaram a ser todos iguais – não comuns, banais. Iguais em qualidade, em importância, em valor. Cada um com sua vantagem. De segunda a segunda, na mesma proporção dos sábados de contrição, de relaxamento, de renascimento. Ou dos domingos de sol e alegria, que declina para momentos de uma preguiça frágil nos seus fins de tarde. Ou das noites medianas de quarta-feira.

Ah, maturidade.

Essas conquistas saborosas sempre estiveram onde estão. Ao alcançá-las, entendemos afinal as razões alheias, dos homens tranqüilos, que degustam a vida de vagar, permanentemente, como se em constante estado de graça, numa paz santa, descomunal.

Ao alcançá-las, redirecionamos o sentido da vida, configurando o leme para o destino certo, para onde seguimos com a sensação de que cumprimos com nosso dever nessa vida, e afinal podemos sentar e apreciar o recomeço de outras jornadas, de outras vidas, que teimosamente, surdas, vão nervosas aos debates, batendo boca com todos por tudo, gastando as horas das sextas-feiras inúteis, consumindo pessoas e um dinheiro precioso que aqui e ali faz falta, mais na frente.

Mas, é preciso dizer, a vida é assim mesmo, cheia de círculos.