Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

07 junho 2007

A LÁGRIMA DO DIA

E ali, a cidade que a gente ama, que quer como nossa sendo de todos.

Um ponto certo de visitação – a praça da minha infância, por onde meu filho corre desajeitado, perto dos meus olhos tontos de saudade e apavorados com tantas lembranças, a provocar o susto pelos anos que correram acelerados, tingindo de alvo meus cabelos negros, entristecendo meu olhar, as dobras de uma pele turva de sofrer ao sol, eterno sol abrasador de Teresina.

Para amanhã algo mais que a tentativa de tocar as nuvens, dentro dos prédios íngremes que escondem das provações as famílias mais íntegras. Arquitetura sofisticada que desperta no malfeitor seu êxtase mais acurado, quando observa os que tanto têm, e mostram que têm, sem qualquer mea culpa, aos que só têm, se têm, a vida. Afinal, o sentido das suas vidas – aparências e desejos.

E as vilas escondem de tudo. Do mendigo que se alimenta, ainda, de caridade, de esmolas miseráveis atiradas nas vasilhas descartáveis de doces e tais, mas de tanta valia... ao virador que se espreme nos ônibus lotados, nos selins de bicicletas desventurosas, ou no passo reto pelos caminhos benditos, com destino à tentativa de ser gente. Entre ambos, o que destrói as impressões mais vivas de felicidade, quando furta o fruto caro do labor alheio, ou escurece o futuro iluminado da juventude na negociação abjeta dos alucinógenos. É assim que apodrece uma sociedade!

Quando a cidade dorme, chega o frio. Vem tarde, em todos os sentidos. Ainda assim, quando amanhece o dia, uma frescura estimulante quer nos impedir de viver. Desconvida o estudante bom a cascavilhar nos livros a noção maior da grandeza. O homem decente a reforçar seu padrão clássico de probidade, nas horas latentes de ocupação. A mulher ao vício eterno de amparar os seus. Mas, tudo por pouco tempo, porque o sol reintegra a realidade ao conceito de cada um, e é aí que a cidade se obriga a acordar, e fazer-se normal.

Em todas as horas, em todos os seus estágios, a cidade exibe entristecida ou indiferente, suas chagas medonhas. Bêbados são tão notórios, tão presentes nessa paisagem triste. É por isso que a gente entende que a cidade cresceu. Não tem lugar para todos, e se tem, demooooora... À falta de paciência, a desesperança. E com ela o quadro negro que expõe, pela luz que é a essência da vida, a quem quiser observar, o desperdício da condição humana que escoa, como um lixo urbano inorgânico, pelos esgotos da indignidade.

Oh, que pena!

Como é constrangedor admitir que homens iguais a mim, fortes como eu, com seus desejos, seus anseios e ambições, seus sonhos e objetivos, se deixam suplantar pela força impetuosa dos vícios perversos – álcool, drogas, loucura, desencanto.

Eu, humano, desejo dizer que hoje não suportei a visão: verti uma lágrima. Não a lágrima copiosa, que nos fragiliza na compleição física que o mundo quer seco, indiferente. Mas no fundo da alma, no íntimo, lá naquele cantinho escuro onde a gente guarda a mais sagrada das nossas verdades.

E dessa lágrima, ainda não sei dizer se se evadiu com vergonha de mim, supostamente impotente, ou do mundo, sinceramente inclemente.

Que pena!