De pai para filho
Existe o ânimo de viver pelas trilhas do teu raciocínio. Existe aquilo que te acompanha do berço, as semelhanças que herdas de pai, mãe, parentes, padrinhos... Ninguém se faz do nada, sem um ritmo oferecido na suavidade da infância, sem os impulsos das tradições mais banais. E assim cresces para o mundo, e vais viver a tua vida conforme teu arbítrio determina, e por mais livre que te sintas, estarás, por certo, honrando ou não o nome dos que te trouxeram ao centro incerto dos acontecimentos.
Vi-me outro dia abraçado a esses pensamentos. Revi, hoje adulto, a relação com meu pai, à qualidade da sua pessoa, que ainda hoje, perto aí dos 25 anos do seu falecimento, ouço referências bondosas, respeitosas, as melhores possíveis ao seu jeito de ser, de viver, de conviver.
Isso me conduz não a imitá-lo, mas a seguir seu exemplo, que me parece maior. Respeitar as pessoas, cortejar os amigos e desprezar com elevação aqueles que não são, digamos assim. Ter boa conduta, ser honesto, decente, fiel à justiça.
Mas senti, nesse crescimento que tais lembranças e apurações trouxeram, que andei pisando noutras linhas, numa trilha equivocada. Senti como que tivesse deslustrando seu nome, o nome do pai, ao freqüentar, por evidente humildade, os botequins de ponta de rua, as latadas mais tristes, as quitandas sem nome, sem mesas, sem bancos confortáveis, sem som de grandeza. Mais que estes, os rendez-vous sem charme, e os encontros de esquina nas cercanias mais inesperadas. Fi-lo, sim, jamais, entretanto, no gozo imbecil da marginalidade, no porre das drogas, de prazeres tão breves quanto tormentosos que pudessem privar-me da liberdade pública, da convivência com o mundo, da concentração explícita da razão e da coerência.
Vejo ao meu redor que nem todos são assim. Até existe aquele que compartilha dessa idéia. Mas em geral, as pessoas estão vivendo sem nexo. Muito à vontade.
Chega um grande momento na vida em que os valores se fazem mais claros. Mais lúcidos. Diferem um tantão daqueles que perseguimos desde a adolescência. Agora, por exemplo, valorizo as tradições da justiça, das melhores relações familiares, das amizades honestas, das condutas irrepreensíveis, da paternidade exercida por todos os momentos do tempo, da orientação conveniente dos pequenos e da congregação racional dos maiores a um projeto monstro de felicidade. De paz, de vida honrada, de se fazer o que tem de ser feito.
Isso até pode ser considerado o máximo da cidadania. Não no seu sentido civil, social, comunitário. Mas no seu sentido pessoal, de se conduzir no seu universo de vida, no seu espaço próprio, no seu âmbito.
Eis aí a violência apavorante. Quem se apavora, senão os bons, os que se sabem decentes?
E quem a promove? Os que se encantam com a frivolidade de um bem, um instante, uma passagem de um prazer suicida, curto, que para se renovar atenta contra a vida alheia, a paz alheia, a integridade alheia.
É preciso privilegiar a família. É ali que nasce o cidadão do futuro, que reclama amor desde o primeiro instante da vida, na fome que o peito da mãe alivia, no calor dos seus braços, na palavra doce do pai, da sua presença inquestionável, do alimento que vem, da escola que virá, do trabalho que haverá de encampá-lo. E as famílias, dentro do tempo, estão se partindo ao nada, se perdendo na sua forma, na sua essência, na sua razão, no seu significado.
Famílias sem pais, sem mães, sem irmãos de sangue, sem irmãos de espírito, sem respeito, acomodadas sob os tetos mais improváveis, a subsistir pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a desconsiderar os elementos mais certos da vida.
Famílias que se deixam apartar sem o menor lamento. E que por isso mesmo não transmitem informações, lições, orientações, não evocam qualquer tradição, ou importância entre as cronologias, as épocas de vida, com seus valores, suas relevâncias, suas validades, seu sentido mais certo de justiça e de cidadania.
Eis os frutos que esta árvore doente oferece à polis. E que ao invés de reconstruí-la, incentivam-na a persistir nessa busca louca do que, ao final, se deduz por glamour. Valorizou-se demais a coisa boba, brinquedos completamente inúteis para o estabelecimento de um mundo pacífico. E situações, momentos. O devaneio das coisas compráveis, que só podem ser adquiridas pela força inquestionável do dinheiro, e que se forma como diferencial entre pessoas. Ora, pessoas se diferem por dentro, pelo que pensam e fazem, não por fora, pelo que usam, possuem, compram ou vendem.
Esse ritmo é destrutivo. Passá-lo de pai para filho é muito fácil. Pode ser esta a razão do seu grande êxito, do seu sucesso. Aliás, não precisa nem ser transmitido em palavras – as atitudes o fazem com eficácia. Basta o desapego ao modelo tradicional das coisas. O novo, o moderno, haverá de sempre ser bem-vindo, mas tem que trazer em si o respeito a todas as origens. Senão não será evolutivo. Senão não será um estágio no processo de crescimento das sociedades. Será apenas modismo.
Recobro as impressões sobre meu pai. Acho, agora, sinceramente acho que não deslustrei ou deslustro sua memória. Porque, em verdade, modernizei os atos que dele absorvi, próprios da tese masculina de ser homem. Pelo lado certo.
Quanto àqueles que vivem enclausurados na escuridão das drogas, do crime, do roubo e dos acessos inconseqüentes às posses alheias, creio que estão modernizando seus instantes, também. Mas pelo lado do avesso.
Vi-me outro dia abraçado a esses pensamentos. Revi, hoje adulto, a relação com meu pai, à qualidade da sua pessoa, que ainda hoje, perto aí dos 25 anos do seu falecimento, ouço referências bondosas, respeitosas, as melhores possíveis ao seu jeito de ser, de viver, de conviver.
Isso me conduz não a imitá-lo, mas a seguir seu exemplo, que me parece maior. Respeitar as pessoas, cortejar os amigos e desprezar com elevação aqueles que não são, digamos assim. Ter boa conduta, ser honesto, decente, fiel à justiça.
Mas senti, nesse crescimento que tais lembranças e apurações trouxeram, que andei pisando noutras linhas, numa trilha equivocada. Senti como que tivesse deslustrando seu nome, o nome do pai, ao freqüentar, por evidente humildade, os botequins de ponta de rua, as latadas mais tristes, as quitandas sem nome, sem mesas, sem bancos confortáveis, sem som de grandeza. Mais que estes, os rendez-vous sem charme, e os encontros de esquina nas cercanias mais inesperadas. Fi-lo, sim, jamais, entretanto, no gozo imbecil da marginalidade, no porre das drogas, de prazeres tão breves quanto tormentosos que pudessem privar-me da liberdade pública, da convivência com o mundo, da concentração explícita da razão e da coerência.
Vejo ao meu redor que nem todos são assim. Até existe aquele que compartilha dessa idéia. Mas em geral, as pessoas estão vivendo sem nexo. Muito à vontade.
Chega um grande momento na vida em que os valores se fazem mais claros. Mais lúcidos. Diferem um tantão daqueles que perseguimos desde a adolescência. Agora, por exemplo, valorizo as tradições da justiça, das melhores relações familiares, das amizades honestas, das condutas irrepreensíveis, da paternidade exercida por todos os momentos do tempo, da orientação conveniente dos pequenos e da congregação racional dos maiores a um projeto monstro de felicidade. De paz, de vida honrada, de se fazer o que tem de ser feito.
Isso até pode ser considerado o máximo da cidadania. Não no seu sentido civil, social, comunitário. Mas no seu sentido pessoal, de se conduzir no seu universo de vida, no seu espaço próprio, no seu âmbito.
Eis aí a violência apavorante. Quem se apavora, senão os bons, os que se sabem decentes?
E quem a promove? Os que se encantam com a frivolidade de um bem, um instante, uma passagem de um prazer suicida, curto, que para se renovar atenta contra a vida alheia, a paz alheia, a integridade alheia.
É preciso privilegiar a família. É ali que nasce o cidadão do futuro, que reclama amor desde o primeiro instante da vida, na fome que o peito da mãe alivia, no calor dos seus braços, na palavra doce do pai, da sua presença inquestionável, do alimento que vem, da escola que virá, do trabalho que haverá de encampá-lo. E as famílias, dentro do tempo, estão se partindo ao nada, se perdendo na sua forma, na sua essência, na sua razão, no seu significado.
Famílias sem pais, sem mães, sem irmãos de sangue, sem irmãos de espírito, sem respeito, acomodadas sob os tetos mais improváveis, a subsistir pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a desconsiderar os elementos mais certos da vida.
Famílias que se deixam apartar sem o menor lamento. E que por isso mesmo não transmitem informações, lições, orientações, não evocam qualquer tradição, ou importância entre as cronologias, as épocas de vida, com seus valores, suas relevâncias, suas validades, seu sentido mais certo de justiça e de cidadania.
Eis os frutos que esta árvore doente oferece à polis. E que ao invés de reconstruí-la, incentivam-na a persistir nessa busca louca do que, ao final, se deduz por glamour. Valorizou-se demais a coisa boba, brinquedos completamente inúteis para o estabelecimento de um mundo pacífico. E situações, momentos. O devaneio das coisas compráveis, que só podem ser adquiridas pela força inquestionável do dinheiro, e que se forma como diferencial entre pessoas. Ora, pessoas se diferem por dentro, pelo que pensam e fazem, não por fora, pelo que usam, possuem, compram ou vendem.
Esse ritmo é destrutivo. Passá-lo de pai para filho é muito fácil. Pode ser esta a razão do seu grande êxito, do seu sucesso. Aliás, não precisa nem ser transmitido em palavras – as atitudes o fazem com eficácia. Basta o desapego ao modelo tradicional das coisas. O novo, o moderno, haverá de sempre ser bem-vindo, mas tem que trazer em si o respeito a todas as origens. Senão não será evolutivo. Senão não será um estágio no processo de crescimento das sociedades. Será apenas modismo.
Recobro as impressões sobre meu pai. Acho, agora, sinceramente acho que não deslustrei ou deslustro sua memória. Porque, em verdade, modernizei os atos que dele absorvi, próprios da tese masculina de ser homem. Pelo lado certo.
Quanto àqueles que vivem enclausurados na escuridão das drogas, do crime, do roubo e dos acessos inconseqüentes às posses alheias, creio que estão modernizando seus instantes, também. Mas pelo lado do avesso.
