Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

04 março 2007

NOSSA TERRA NOSSA

E batia uma saudade não sei de quê, uma vontade de chorar uma lágrima que não era de dor, apenas, de uma materialidade desconhecida, bem sei, mas bem definida de espírito. Era saudade dum sabor, temperado pelas tradições da terra, das mãos negras hábeis que cozinhavam na lenha as iguarias mais delirantemente sápidas. E que me fizeram obeso, hoje sei...

Um angu de milho consistente, misturado à carne moída realçada em gosto pelo gosto do coentro, da cebola e do alho esmagado, embaralhado aos pecaminosos bocados de arroz com carne – uma Maria Izabel amorenada, a escurecer-se em tons na sua miscigenada porção de pegado, e corada em tons distintos aqui e ali pelo encosto lateral da panela velha de ferro bruto, artesanal, assim de cheiro verde. Ah, e aquela mancheia de farinha branca, finiiiiinha... E a mão da mãe, carinhosa, a confeccionar capitão, adicionando discreto o odor distante do esmalte ou cintilante, pra confirmar no tempo algo diferencial e marcante. Entre o exercício exeqüível da mastigação, da prece gastronômica, aquele delírio santificado do suco de buriti bem gelado. E o que não dizer dos bagos de bacuri que me aguardavam na sobremesa, quando ainda sobrava espaço nos olhos, sempre maiores que a barriga...

E os gestos de meu pai, ali na cabeceira, devorando sua banda de melancia, sempre o miolo, sem sementes. Melancia que tinha outro gosto, muito à tangente da melancia de agora. Descobri por que: é que antes a comíamos ao natural; hoje a comemos sempre gelada. A frescura rouba-lhe o sabor.

Num passeio ou outro, bem me lembro o Gelado nas margens do Mercado Velho. Refresco concentrado em garrafas enormes, adicionado ao gelo ralado. Se tivesse álcool seria um Daykiri deselegante, pela ausência explícita do copo longo, uma taça própria pros eventos glamourosos. Mas era de bom sabor. É capaz de ainda ter, ali naquele recorte do ontem dessa cidade, onde a memória se materializa, ganha forma e preço, pra provar que não é minha mentira.

Do Gelado minha imaginação descamba pros barcos da travessia rumo ao Maranhão. Oh lugar longe... Quantas vezes não me senti como que em Veneza, certo que sem as encostas de pedra, sem as vielas, os cruzamentos com outros barcos, sem as gôndolas insuspeitas, com seus marujos de blusas listradas, sem a companheira delicada semi-encoberta pela sombrinha florida e débil, com seu vestido sinceramente branco, e o chapelinho enlaçado de fitas claras, recheado de rosas tão perfumadas quanto frescas, sem o romantismo do seu silêncio, sem o silêncio da sua tração humana, sem o torpor da sua ambientação européia, mas mais magnífica ainda, porque tipicamente nossa, personalizada na morenez da água parnaibana, com sua cor do barro nosso, da nossa tez e do nosso ânimo magoado, da nossa lágrima e do nosso riso, da nossa fé e da nossa tendência franciscana.

E lá o prazer do regresso, abençoado pelo beiju da tapioca mais alva do mundo, disputando clareza com a brancura do coco ralado, banhado no leite e amparado na doçura do açúcar mascavo, ainda assim claro. Claro e saboroso.

E o sol, a se por naquela insuperável e absurda idéia de beleza que é a ponte metálica, brilhando na sua estrutura firme, luzidia, despertando nossa preguiça saudável, natural em quem pode se valer das redes brancas de peculiar bordado, de varandas festivas, esvoaçando no balanço lerdo, do pé na parede, ritmado pelos pensamentos mais limpos que se pode ter, de certo esperando o ar da graça de tantas estrelas brilhantes, da lua prateada e a amenidade dum vento retrasado, sovinado pela tarde que se auto-sublinhada quente, mas sempre bem-vindos, ambos.

Não dá vontade de chorar?