Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

13 janeiro 2007

Meu Mais novo amigo

Esta semana conheci meu mais novo amigo. Confesso que todo dia faço uma nova amizade, mas desta vez foi diferente.

Como todo processo de reconhecimento, nossa amizade começou fria. Depois de nos darmos as mãos, homens civilizados que nos supomos, trocamos uma ou outra palavra oca, meio vazia, para que um vocabulário formal então se fizesse real.

Conversamos generalidade, escolhendo palavras. Conseguimos discordar, nalguns pontos, mas isso tudo é natural – afinal pertencemos a mundos diferentes: ele, advogado, evidentemente reservado e precavido; eu, jornalista, investigador dos mais zelosos.

Em uma conversa apostofada, que não deveria durar mais do que meia hora, estendemo-la por duas horas ou mais. Falamos de gente que não existe mais, em corpo. De lugares perdidos no tempo. De mulheres do mundo. De bebidas. De padres, lugares, de crimes, de festa e farra. Falamos de tudo, e ele, a cada palavra mais me surpreendia.

De tudo o que já vi, li e vivi, este amigo é exemplarmente especial.

Se não é, parece um garoto empolgado que acabou de aprender a ler. Que soletra a vida que as placas estampam com a mesma euforia do neto da minha vizinha, que ainda ontem entrou para a escola, e desde outro dia consome as letras que se lhe mostram os parentes adultos, vaidosos.

Na vez derradeira em que postei um comentário, triste pra caramba, andei falando na morte, no fim da vida que a ninguém interessa. De fato andava receoso. Numa hora tinha saudade dos amigos que sumiram pela vontade indiscutível de Deus, nosso Senhor. Outra, tava com medo de ter chegado ao fim da linha. Parece que depois dos quarenta é a grande notícia dos nossos aniversários. Um medo, uma presunção, uma precaução, uma aporrinhação!

E aí vem esse meu novo amigo. Ah, meu Deus, como o senhor escreve certo por linhas tão complexas!!! Se não tivesse esse pífio conhecimento gráfico...

Pois bem. Meu amigo me deu uma das maiores lições de vida, como nunca tive. Pra começar, tem ele seus robustos 87 anos de idade – OITENTA E SETE ANOS DE IDADE. É um advogado atuante, com escritório montado e tudo. Caminhador, homem que faz seu percurso de mais de vinte quilômetros diários, entre casa - escritório - casa, de segunda a sexta-feira. Uma memória e tanto. Capaz de te contar Teresina de 1920 até ontem, com uma precisão que nem aquelas balanças dos meninos da coca.

Oitenta e sete vezes ele viu um reveillon. Oitenta e sete vezes comemorou suas bodas. Oitenta e sete vezes testou seus pulmões soprando velinhas renitentes de iluminar os pensamentos cada vez mais adultos, que não se apagavam com elas, antes renasciam com seus ocasos. Oitenta e sete carnavais. Oitenta e sete festinhas de filhos, noites de Natal, e se sabe lá quantas puladas de cerca... Oitenta e sete grande e irrepreensíveis ressacas, com certeza.

E eu aqui, pensando em morte, no desagradável dos meus 44 anos.

Ah, Dr. Pedro Carvalho, que Deus bom esse nosso, hein?