Paulo Chaves / BLOG

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

05 fevereiro 2007

O PREÇO DA DEMOCRACIA


Quanto vale o civismo da representatividade? Quanto se deve pagar a alguém para que, num somatório nacional, nos represente? Que remuneração se pode estipular a alguém para que opine, decida, apóie, expresse, entenda, repare, vote em nosso nome leis e regulamentos que afetam diretamente a vida de todos?

Há duas versões: uma, nua de considerações factuais, essencialmente purista, roga pela importância e relevância de um posto público de participação popular no âmbito das decisões civis do país. É o exercício representacional da democracia – a participação indireta do povo no processo de decisão daquilo que lhe diz respeito, no sentido da digestão melhor possível das conseqüências dessas decisões.

Mas no Brasil as coisas nunca são exatamente como parecem, como devem ser. Resulta daí a outra versão. Há quem creia que democracia é o nome do engodo que ludibria o brasileiro, em cujo nome e sob a sua utilização como pano de fundo se tem desvirtuado tudo enquanto, ou todo movimento público – sejam políticos, administrativos ou de legalidade.

Entendo democracia como participação. Do povo, pelo povo e para o povo. O povo vota e escolhe representantes – portanto o governo é seu, o representante é seu. O representante governa, legisla, julga, decide – faz tudo isso porque representa o povo, faz por ele, conforme seu (do povo) querer. E essas decisões, enfim, são tomadas para ele (povo), sempre adotando como referência, destinatário, beneficiário e tudo o mais, o povo. É assim que entendo.

A realidade publica outra história. Nela a classe política, que por anos sem conta vem dominando o cenário governamental brasileiro, se reveza nos cargos e instâncias do poder. Ditaduras, oligarquias, grupos, nomes e famílias – no sentido da indicação de um de seus membros, sempre, a cargos determinados, garantindo ali seu quinhão de poder. A base financeira e a utilização descarada e desabrida da máquina pública, dos favores públicos, têm prorrogado mandatos infinitamente. Desde que o Brasil é Brasil. A culpa, penso mesmo, é do povo, que não se respeita. E do político, também, que aprisiona o povo nessa condição estúpida de pedinte.

Uma coisinha aqui e outra ali se fazem para aplainar os ânimos. É uma satisfação, em todo caso. É certo que vivemos no estado falido, que não vale nada diante das suas obrigações. É falso, é cínico, é irresponsável. Finge que governa e a gente, todos nós, acreditamos. Isso é assim porque nossa gente nunca teve coragem de indignar-se, e promover com firmeza as correções reclamadas. É uma passividade arretada! O nome das coisas no Brasil é só para enumerá-las – não significa coisa nenhuma.

Político, por uma praxe torta, naquela linha do poder desvirtuado, vive de tirar vantagem. Aquela representatividade ao pé da letra muda de sinônimo, passando a ser uma pescaria de instrumentos pontuais de corrupção. Comissão pelos recursos que consegue liberar. Comissão pelo benefício que estende à população pobre. Pagamento pelo apoio a projetos que tramitam nos corredores da burocracia. Pagamento pelo voto e favorabilidade a esse ou aquele assunto. É uma bandidagem viciosa e contagiante. Agora, diante de um país zonzo de tanta falta de vergonha dos seus gestores, em todos os postos a partir do maior, estão querendo legalizar o saque fedorento do cofre, sob a forma de salário. Astronômico, por sinal.

Não se deve nem citar as mordomias. Ou as intimidades que os gabinetes escondem, entocam. Os financiamentos da indignidade que se tramam nas surdinas do poder. Coisas nojentas, mesmo. Mais isso, de salário alto pra caramba?

Recorro ao purismo da democracia: quanto vale de fato a nossa representatividade? E será que ela está se dando sob formas tão eficientes, assim, para merecer tamanha remuneração?

Sem esse purismo, e com os pés no chão, sentencio: isso é imoral!

2 Comments:

Blogger Marcus Cavalcante said...

Paulo sei que você não está questionando a democracia. Mas o sistema de representatividade. Mesmo assim atrevo-me lembrar-lhe que resta-nos, democraticamente, ter a liberdade de escolher, de falar, de pensar, de se acovardar diante dos nossos interesses ou da relação de poder. Escolher um representante ou votar em branco. Candidatar-se, ser ou não filiado a um partido político. E quando falo na plena liberdade que a democracia permite não me refiro a fazer ou dizer o que nos dá na telha. Isto seria simplesmente deixar-se escravizar pelos impulsos.

quinta-feira, 08 fevereiro, 2007  
Blogger Paulo Chaves said...

Questiono, Marcus, a falta de dignidade do brasileiro. Questiono a nossa própria dignidade, quando assistimos o circo pegar fogo como se não fossemos nós suas peças principais, o que lhe anima: os palhaços! Ou nós não somos um povo, ou nós somos um povo habituado a não se respeitar.
Um abraço.

quinta-feira, 08 fevereiro, 2007  

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