Cadê meu amigo?
Deveria existir no mundo uma janela para o imponderável. Por onde fosse possível dialogar com nossas memórias, visitar os que partiram, e que nos permitisse amenizar de outro modo essa dor fina e constante que só passa com o sono.
Deveria haver um jeito, sei lá qual, de não deixar que se apagassem das nossas lembranças, do nosso respeito ou da nossa prática de vida aquelas pessoas com as quais durante o correr do tempo estreitamos os laços de uma amizade honesta, essencial para a satisfação dos nossos instantes mais felizes, e também dos mais amargos. Porque é difícil formar e manter amizades de qualidade. E se faz terrivelmente dolorido quando se desfazem pela força imprópria da morte.
Deveria haver entre todos uma conexão superior, que se impusesse por entre ondas radiativas, nos quartéis astronômicos, nos magnetismos solares, nas energias freáticas, nessas coisas que não sei explicar, nem quero entender, mas desejaria sinceramente utilizar.
Maltrata meus momentos essa distância de tanta gente amiga que já se foi não sei para onde. Que se matricula na minha saudade e não falta nunca ao chamamento da lembrança nos tempos mais loucos. Um riso perdido na piada mal contada. O gole atravessado da bebida emblemática. A história de uma aventura hilária. A mentira costurada na intenção singela do bom humor, apenas para extrair o riso aberto dos circunstantes, sob o testemunho que se faz confirmar mais falso ainda...
Amigos que partiram. Amigos de tantos nomes, tantas histórias, tantos humores; uns de letras tristes, outros de palavras, apenas palavras alegres. Outros de olhares, uns de abraços solidários, uns piegas, outros acanhados. Uns vibrantes, outros tão tímidos. Uns altivos, outros humildes. Uns sinceros, outros silenciosos. Uns do dia, outros da noite. Uns frios, outros calculistas. Uns amáveis, outros indóceis. Uns dos bares, dos lupanares quaisquer, das farras sem fim, das surubas bissextas, da bazófia estridulante, da mesa florida das mais variadas espécies femininas. Outros dos lares, dos conclaves familiares, das reuniões de filhos, noras, netos, irmãos, parentes e amigos, das tertúlias de casais apaixonados que de fato se amam mesmo depois de décadas do banho-de-igreja. Outros híbridos, que gostavam um pouco de tudo. Outros difíceis, que não gostavam de nada. Uns ingratos, outros gratos. Uns presentes, outros escrotos. Uns discretos, outros rasgados.
A sensação que passa é a de que nossa agenda se esvazia de contatos. É triste riscar um nome daquelas páginas. É doloroso demais ter de arrancar da memória um nome, um número de telefone, um endereço de residência, de trabalho, dos lugares certos de suas visitas, do seu lazer, da sua presença. É trágico revisitar isso tudo, com a certeza de que seu amigo não estará por ali. Não esquentará a cadeira do botequim habitual. Nem o banco daquela praça, ou a calçada residencial. Não trocará com você qualquer palavra, mesmo a mais banal. Não responderá com a voz à tua voz.
E o desvalor das horas empobrecidas que só a saudade aquilata, causa um vazio triste, difícil de animar. Não há lagrima que console. Não há sol que emoldure o retrato dolorido dos seus sentimentos forçosamente dependurados na parede fria do teu íntimo.
Restam essas horas de prece. Os olhos tristes e piedosos do nosso Cristo Jesus, amigo maior, ainda me parecem o alento alternativo. E é a ele que peço e rogo: invente uma maneira de nos conectarmos com esses outros amigos que lhe circulam, que já se foram daqui. Crie um “interplano” cujas senhas, logins, e-mails, nomes de usuários e tais, cunhem-se no sentimento máximo da nossa dor, nossa saudade incontrolável, persistente, com a velocidade das nossas lágrimas.
Hoje, cinco de janeiro, dia do meu aniversário – pôxa, 44 anos -, era o presente que queria ganhar.
Deveria haver um jeito, sei lá qual, de não deixar que se apagassem das nossas lembranças, do nosso respeito ou da nossa prática de vida aquelas pessoas com as quais durante o correr do tempo estreitamos os laços de uma amizade honesta, essencial para a satisfação dos nossos instantes mais felizes, e também dos mais amargos. Porque é difícil formar e manter amizades de qualidade. E se faz terrivelmente dolorido quando se desfazem pela força imprópria da morte.
Deveria haver entre todos uma conexão superior, que se impusesse por entre ondas radiativas, nos quartéis astronômicos, nos magnetismos solares, nas energias freáticas, nessas coisas que não sei explicar, nem quero entender, mas desejaria sinceramente utilizar.
Maltrata meus momentos essa distância de tanta gente amiga que já se foi não sei para onde. Que se matricula na minha saudade e não falta nunca ao chamamento da lembrança nos tempos mais loucos. Um riso perdido na piada mal contada. O gole atravessado da bebida emblemática. A história de uma aventura hilária. A mentira costurada na intenção singela do bom humor, apenas para extrair o riso aberto dos circunstantes, sob o testemunho que se faz confirmar mais falso ainda...
Amigos que partiram. Amigos de tantos nomes, tantas histórias, tantos humores; uns de letras tristes, outros de palavras, apenas palavras alegres. Outros de olhares, uns de abraços solidários, uns piegas, outros acanhados. Uns vibrantes, outros tão tímidos. Uns altivos, outros humildes. Uns sinceros, outros silenciosos. Uns do dia, outros da noite. Uns frios, outros calculistas. Uns amáveis, outros indóceis. Uns dos bares, dos lupanares quaisquer, das farras sem fim, das surubas bissextas, da bazófia estridulante, da mesa florida das mais variadas espécies femininas. Outros dos lares, dos conclaves familiares, das reuniões de filhos, noras, netos, irmãos, parentes e amigos, das tertúlias de casais apaixonados que de fato se amam mesmo depois de décadas do banho-de-igreja. Outros híbridos, que gostavam um pouco de tudo. Outros difíceis, que não gostavam de nada. Uns ingratos, outros gratos. Uns presentes, outros escrotos. Uns discretos, outros rasgados.
A sensação que passa é a de que nossa agenda se esvazia de contatos. É triste riscar um nome daquelas páginas. É doloroso demais ter de arrancar da memória um nome, um número de telefone, um endereço de residência, de trabalho, dos lugares certos de suas visitas, do seu lazer, da sua presença. É trágico revisitar isso tudo, com a certeza de que seu amigo não estará por ali. Não esquentará a cadeira do botequim habitual. Nem o banco daquela praça, ou a calçada residencial. Não trocará com você qualquer palavra, mesmo a mais banal. Não responderá com a voz à tua voz.
E o desvalor das horas empobrecidas que só a saudade aquilata, causa um vazio triste, difícil de animar. Não há lagrima que console. Não há sol que emoldure o retrato dolorido dos seus sentimentos forçosamente dependurados na parede fria do teu íntimo.
Restam essas horas de prece. Os olhos tristes e piedosos do nosso Cristo Jesus, amigo maior, ainda me parecem o alento alternativo. E é a ele que peço e rogo: invente uma maneira de nos conectarmos com esses outros amigos que lhe circulam, que já se foram daqui. Crie um “interplano” cujas senhas, logins, e-mails, nomes de usuários e tais, cunhem-se no sentimento máximo da nossa dor, nossa saudade incontrolável, persistente, com a velocidade das nossas lágrimas.
Hoje, cinco de janeiro, dia do meu aniversário – pôxa, 44 anos -, era o presente que queria ganhar.

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