Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

15 dezembro 2006

ONTEM POR QUE?


Pela manhã uma angústia frágil me tirava a noção ambiental das coisas. A chuva rala ameaçava a quentura do dia. O pássaro acuado, com seu canto tímido, embora livre da clausura. As plantas intumescidas dos excessos d’água, sonegando aos meus olhos o enxágüe da aurora. As pessoas lerdas, sem pressa, gastando as palavras mais inúteis para elogiar o dia raro. E meu filho dormindo, inocente, a frieza do seu despertar tardio.

Aos poucos, no cisco das onze horas, o dia me parece outro. Acalorado, clama pela água boa depositada nos artifícios banais das cozinhas. Instiga o consumo duns bons kw de energia, para abrandar um clima perverso, que amplifica meu pesar reversível. Cabeça quente.

A fome, o bocado comido, o doce de buriti, o copo da água mais fresca. O sono embalsamado pela refrigeração, a calmaria divina que se faz verdade pelo latido distante do cachorro sem dono, exercendo sua inutilidade em lugar incerto, não sabido. O despertar preguiçoso da tarde morrente, o princípio eventual da noite. O calor se rende.

Num passeio memorável, contorço-me de saudade.

Ah esse ontem distante, que mais parece afastar-se dos meus dedos quanto mais nele penso.

Ah meu tempo, que se apaga em como uma árvore natalina no dia de Reis.

Ah, que dor amarga, incompreendida, terrível, que me causa esta saudade, apesar de um futuro tão lindo ali na porta, me esperando, apesar desse agora gostoso de viver.

Que coisa!