SONHO BOM
Nasci no Piauí.
Cresci vendo meu estado sob óticas múltiplas. Desde a infância não tive, como a infinita maioria dos meus contemporâneos, o desprendimento de me tornar alheio às evidências, às realidades e aos ângulos das coisas. Vai ver porque em casa havia um jornalista pragmático como chefe.
No desenvolvimento pessoal que me permitiu a vida, muito há de solidariedade, bom senso, objetividade, prioridade. E pragmatismo, também. E sou absolutamente fiel ao que penso, ao que acredito. É por isso que uns amigos me consideram reacionário. Aceito a pecha como se me considerando conservador. Retrógrado ou intolerante, não.
Sinto-me apto a expor e defender minhas crenças. Afinal, se tenho opiniões é porque evoluí pensamentos. E anseios, e esperanças. Parecem sonhos, porque conheço a capacidade, ou incapacidade, dos homens públicos daqui. Sei o tipo de interesse que lhes move. E por isso, até onde podem ir, e aonde de fato vão.
Dos muitos sonhos destaco o maior: o de ainda alcançar o dia em que os irmãos do interior serão tão bem tratados quanto os da cidade. Sabe como é essa história de estrutura? Pois é.
Quero vir cidades com energia. Energia mesmo, e não essas instalações e ofertas inseguras, como se fossem favor. E dentro das casas a parafernália de objetos elétricos, onde o povo possa acessar a informação – para conhecer o mundo, ver como os outros vivem, o que é a lei e sua aplicação implacável, o respeito à pessoa humana, as evoluções sociais, a dignidade, a cidadania... Acessar a comodidade das máquinas, que extraem sucos, que purificam, que gelam água, e conservam coisas para dias futuros. Que postergam as horas, levando-as para as madrugadas amplas, pelas asas dos sons, das imagens, das letras, das ilusões óticas.
E as cidades com saúde. Cada uma com seu hospital, com seu médico humano residente, com sua enfermeira dedicada, com seu equipamento de exame, sua farmácia completa de tudo, sua ambulância.
Escolas, com professores justamente pagos, e alunos conscientes de que ali estão para aprender, para ser gente, ao contrário do hoje, quando buscam a merenda ordinária, mas redentora. Crianças compenetradas no seu tempo. Brincando de tudo enquanto. E não essas que fumam maconha, cheiram cola, éter, gasolina, até peido de porca se der lombra. E que reservem seu lugar no futuro, desde o alisamento inicial dos bancos da escola, porque o Estado é sério e estável.
Por conta disso, haverá menos bandidos nas ruas. Nas ruas e nos gabinetes. Porque enfim teremos um povo.
Para alcançar esse estágio, que vai muito além desses exemplos, na minha cabeça, primeiro a gente precisa se entender como gente. Admitir nossa pobreza, nossas carências, nossas deficiências, e enumerar nossas curas. Saber do que precisamos. Desenganar imediatamente essa mediocridade que está aí posta, que só nos diminui, ilude a autoridade com um funcionamento precário das coisas, porque é só isso que podem produzir, porque de certo medíocres. E parar de localizar as ações. Parar de excluir, de selecionar. Precisamos funcionar para todos.
Tenho a plena convicção de que não sonho só. Muitos têm esse mesmo pensamento, essa mesma percepção de futuro nos recônditos das suas intimidades. Lamentavelmente não é uma impressão contagiosa, epidêmica. Ah se fosse...
Sei que se isso um dia vier de fato ocorrer, virá pelos séculos, não pelas décadas.
Contanto que venha...
Paulo Chaves
E as cidades com saúde. Cada uma com seu hospital, com seu médico humano residente, com sua enfermeira dedicada, com seu equipamento de exame, sua farmácia completa de tudo, sua ambulância.
Escolas, com professores justamente pagos, e alunos conscientes de que ali estão para aprender, para ser gente, ao contrário do hoje, quando buscam a merenda ordinária, mas redentora. Crianças compenetradas no seu tempo. Brincando de tudo enquanto. E não essas que fumam maconha, cheiram cola, éter, gasolina, até peido de porca se der lombra. E que reservem seu lugar no futuro, desde o alisamento inicial dos bancos da escola, porque o Estado é sério e estável.
Por conta disso, haverá menos bandidos nas ruas. Nas ruas e nos gabinetes. Porque enfim teremos um povo.
Para alcançar esse estágio, que vai muito além desses exemplos, na minha cabeça, primeiro a gente precisa se entender como gente. Admitir nossa pobreza, nossas carências, nossas deficiências, e enumerar nossas curas. Saber do que precisamos. Desenganar imediatamente essa mediocridade que está aí posta, que só nos diminui, ilude a autoridade com um funcionamento precário das coisas, porque é só isso que podem produzir, porque de certo medíocres. E parar de localizar as ações. Parar de excluir, de selecionar. Precisamos funcionar para todos.
Tenho a plena convicção de que não sonho só. Muitos têm esse mesmo pensamento, essa mesma percepção de futuro nos recônditos das suas intimidades. Lamentavelmente não é uma impressão contagiosa, epidêmica. Ah se fosse...
Sei que se isso um dia vier de fato ocorrer, virá pelos séculos, não pelas décadas.
Contanto que venha...
Paulo Chaves
