Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

Nome:
Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

10 novembro 2006

SONHO BOM


Nasci no Piauí.
Cresci vendo meu estado sob óticas múltiplas. Desde a infância não tive, como a infinita maioria dos meus contemporâneos, o desprendimento de me tornar alheio às evidências, às realidades e aos ângulos das coisas. Vai ver porque em casa havia um jornalista pragmático como chefe.
No desenvolvimento pessoal que me permitiu a vida, muito há de solidariedade, bom senso, objetividade, prioridade. E pragmatismo, também. E sou absolutamente fiel ao que penso, ao que acredito. É por isso que uns amigos me consideram reacionário. Aceito a pecha como se me considerando conservador. Retrógrado ou intolerante, não.
Sinto-me apto a expor e defender minhas crenças. Afinal, se tenho opiniões é porque evoluí pensamentos. E anseios, e esperanças. Parecem sonhos, porque conheço a capacidade, ou incapacidade, dos homens públicos daqui. Sei o tipo de interesse que lhes move. E por isso, até onde podem ir, e aonde de fato vão.
Dos muitos sonhos destaco o maior: o de ainda alcançar o dia em que os irmãos do interior serão tão bem tratados quanto os da cidade. Sabe como é essa história de estrutura? Pois é.
Quero vir cidades com energia. Energia mesmo, e não essas instalações e ofertas inseguras, como se fossem favor. E dentro das casas a parafernália de objetos elétricos, onde o povo possa acessar a informação – para conhecer o mundo, ver como os outros vivem, o que é a lei e sua aplicação implacável, o respeito à pessoa humana, as evoluções sociais, a dignidade, a cidadania... Acessar a comodidade das máquinas, que extraem sucos, que purificam, que gelam água, e conservam coisas para dias futuros. Que postergam as horas, levando-as para as madrugadas amplas, pelas asas dos sons, das imagens, das letras, das ilusões óticas.
E as cidades com saúde. Cada uma com seu hospital, com seu médico humano residente, com sua enfermeira dedicada, com seu equipamento de exame, sua farmácia completa de tudo, sua ambulância.
Escolas, com professores justamente pagos, e alunos conscientes de que ali estão para aprender, para ser gente, ao contrário do hoje, quando buscam a merenda ordinária, mas redentora. Crianças compenetradas no seu tempo. Brincando de tudo enquanto. E não essas que fumam maconha, cheiram cola, éter, gasolina, até peido de porca se der lombra. E que reservem seu lugar no futuro, desde o alisamento inicial dos bancos da escola, porque o Estado é sério e estável.
Por conta disso, haverá menos bandidos nas ruas. Nas ruas e nos gabinetes. Porque enfim teremos um povo.
Para alcançar esse estágio, que vai muito além desses exemplos, na minha cabeça, primeiro a gente precisa se entender como gente. Admitir nossa pobreza, nossas carências, nossas deficiências, e enumerar nossas curas. Saber do que precisamos. Desenganar imediatamente essa mediocridade que está aí posta, que só nos diminui, ilude a autoridade com um funcionamento precário das coisas, porque é só isso que podem produzir, porque de certo medíocres. E parar de localizar as ações. Parar de excluir, de selecionar. Precisamos funcionar para todos.
Tenho a plena convicção de que não sonho só. Muitos têm esse mesmo pensamento, essa mesma percepção de futuro nos recônditos das suas intimidades. Lamentavelmente não é uma impressão contagiosa, epidêmica. Ah se fosse...
Sei que se isso um dia vier de fato ocorrer, virá pelos séculos, não pelas décadas.
Contanto que venha...


Paulo Chaves

09 novembro 2006

COISAS DA MÍDIA


Quando o rádio AM era a mídia principal da nossa eternamente quente Teresina, nutri um grande hábito ao seu pé, por muito tempo: ouvir o programa do Garrincha nas tardes de domingo, intitulado “Um prego na Chuteira”. Em especial nas vésperas de Rivengo.
Admiro o Garrincha, pseudônimo do velho e bom Deusdeth Nunes. Lembro da sua Folha da Mãe Ana, n´O Dia, suplemento humorístico do qual participava também o Zevilson – outro “caba véi” desmantelado. Despertei ali uma vocação para a graça que nem prosperou assim, posto que minha comicidade é de sátira, e sátira no Piauí não é bem recebida porque todo mundo se sente ofendido e passa a se dedicar à perseguição dos seus críticos. Sempre foi assim. Faço-as no resguardo da informalidade, nas conversas fraternais, que é pra não correr riscos.

Bom, tudo isso pra ressaltar três aspectos de uma situação – o da publicidade, outro do Garrincha, e mais um de certa e especial pessoa.

O da publicidade diz respeito ao processo de fixação das mensagens de um modo inapagável. O programa do Deusdeth existiu ali pelas coxas de 1980. Quase trinta anos atrás. Até hoje ecoa nos meus ouvidos, ao menos, algumas das paródias que compunham o bestiário. E, por isso, dou aqui meu testemunho de que o rádio é também uma mídia excelente.

A do Garrincha é quanto aos tipos, pessoas e coisas que eternizou. Criava chavões para patrocinadores “virtuais”, lisos, que não tinham como arcar com o ônus do investimento publicitário, digamos assim. E funcionava, dando resultados comerciais aos “comerciantes”.

Já a certa e especial pessoa se trata da Dona Maria Divina.

N’Um Prego na Chuteira, o apresentador dizia que o programa era um oferecimento do Pastel da Maria Divina. Tinha um textinho: “Pastel da Maria Divina – Comeu... (entrava uma nota no violão) TOOOOIM - Morreu!!!”

Conversei um tempinho com ela hoje pela manhã. Pôxa, como invejei aquela disposição.

Dona Maria Divina é uma senhora de mais ou menos um metro e setenta de altura, e conta exatos 79 anos de idade. Ano que vem, logo em fevereiro, entra nos 80 anos. Contou-me que todos os dias, de segunda-feira a sábado, sai de casa, ali pro lados do Marquês, e vai para o centro da cidade vender seus pastéis – de carne, queijo e “pimenta”, que é como chama o de carne bem apimentado. Não me disse quantos produz e põe à venda, mas me disse que só volta prá casa depois que vende o último, “nem que seja fiado”. Que tudo o que conseguiu na vida foi o pastel que deu, embora venha recebendo aposentadoria – resultado de anos de contribuição – há uns vinte e poucos anos. O tempo de pastel é maior – são 55 anos ininterruptos.

Rapaz, que mulher disposta. Vai chegar aos 90 anos carregando sua cesta de pastel. Com certeza. E me confidenciou que sua saúde só tem um probleminha com o colesterol, que não é muito baixo, porque só gosta de comida pesada: não relaxa mão de vaca, panelada, cozidão, essas coisas. Esse negócio de purezinho, de creme de galinha, daquelas coisas bonitas de mesa bacana não é com ela.

Olha, 55 anos fazendo uma coisa só, todos os dias – a bem dizer, é impressionante. E o desejo de continuar? Tenho para mim que isso já passou ao vício, à mania, algo incorporado à naturalidade de viver. Não notei desânimo na sua voz. Ao contrário, ressaltou seu bom humor, sua certeza de que no final do dia vai levar pra casa seus trinta, cinqüenta reais, e a cesta vazia. Aliás, dia que acaba às três da tarde, ao esclarecer que antes ia ao centro pela manhã e à tarde, mas que agora, devido ao calor, “só tira um expediente”.

Que lição, Dona Maria, que lição.

Fiquei pensando depois, sozinho, que se o Garrincha não tivesse levado Dona Maria para o Um Prego na Chuteira ela teria passado em branco, anônima como um pássaro migrante. Talvez não tivesse resistido tanto tempo no ramo. Nem feito o sucesso que faz. Angariado a estima de tantos; despertado a curiosidade de muitos. Pagado rente e quente seu “INPS”, e garantido a tranqüilidade da pensão, da aposentadoria, que ela refuga em transformar na fonte única dos seus proventos.

Na luta, ativa e determinada, Dona Maria Divina segue vendendo seu pastel, que, até onde se sabe, nunca matou ninguém.


Paulo Chaves

07 novembro 2006

SAUDADE

A tarde se deita preguiçosa. O céu parcialmente nublado subtrai dos meus olhos a visão das coisas lúcidas, do acaso e da hora, e me transporta como um OVNI “abduz” os alienáveis para o incerto e inesperado, sob pensamentos os mais diversos.
Grita no meu juízo imperfeito a poeira medonha da saudade. Saudade do eu menino, correndo atrás das bolas de plástico, das pipas cadentes, das ilusões hilárias, da surra paterna, do beijo materno, do riso aberto dos meus irmãos de sangue e vida. Da escola, do temporal no pátio lindo e longo, da quadra de esportes, da bola de spiribol, do amendoim torrado com chocolate que degustei eufórico, e que me vinha embalado em canudos de papel-jornal.
Saudade dos escorregões nas escadas do Ipase, enquanto aguardava minha mãe tirar seu labor e sustento. De Dona Maria Flor, gordinha, amigável, paciente, gente grande! De Dona Osima, do deputado Juraci, então apenas dentista, bom dentista. Do “seu” Wilson, motorista da “burra preta” – a caminhoneta Rural daquela repartição. Do quartel de polícia na Pedro II. Do lanche de Dona Marlene à saída do 4 de Setembro – refresco de maracujá com pastel de carne. Do Fórmula 3 da Tops. Do milk shake de flocos. Da Beira Rio. Da Maracanã. Das meretrizes espertas da Imperial. Do cheiro de enxofre, naftalina e creolina da Imperatriz. Do baterista louco do Estrela. Da luz fraca e colorida do Alabama. Dos quartos funcionais da Raimundona. Da evolução para a Cristina. Das conversas sem rumo com a Raimundinha Leite, na noite impúbere da Ana Paula. Da Francisquinha e sua atenção para comigo, pela reputação do meu sobrenome.
Saudade das farras hoje impossíveis, ou sem sentido. Das ressacas sem bom remédio, e das lições dos bares. Das amizades que nunca mais revi, colecionadas nas instâncias etílicas, nos porres de uísque e respeito, nos bares que não existem mais.
Saudade dos grandes amigos – Peri Machado, Almeida Carvalho, Paulo Herculano, Paulo de Tarso Moraes, Raulzim, Fernando Mãinha, Afonso Gil, Elizaldo “Zazado”, Iaso Machado, Alberone Lemos, Mourão, Antonio Luis, Edmilson Rocha, e outros tantos que Deus tragou para perto de si, e nos deixou “posterizados” na lembrança boa dos dias de bom convívio.
Saudade dos bancos ternos da faculdade, da vontade de ser gente pelas mãos dos livros, voz dos mestres, exemplo dos colegas. Saudade dos ideais de menino. Dos conselhos veementes dos mais próximos. Da irresponsabilidade quando era possível errar. Da seriedade quando era impossível falhar.
Saudade das promessas de namoro, da cerimônia tensa do meu casamento, do nascimento dos meninos, das fraldas sujas do meu primeiro filho, e da sua primeira febre, minha primeira insônia enquanto pai. Do primeiro grande beijo que me deu a minha filha. Do sorriso de suas alegrias ao seu contentamento. Saudade dos casamentos seguintes, quando começaram. E do alívio de seus finais, quando acabaram.
Saudade do mar, da algazarra das ondas incessantes, incansáveis na produção de espuma e beleza. Do sol se pondo diante dos meus olhos apaixonados, no romantismo das escapadinhas pro litoral. Do bronzeado inocente com que me carimbava o tempo, se não era impossível escurecer-me ainda mais. Da angústia trágica do retorno, na tarde viva dos domingos de vida que ficaram para trás. Da carne de sol de Campo Maior, da felicidade de alcançar a nem tão íngreme Ladeira do Uruguai, iluminada com a luz postiça, engrandecendo Teresina, na sua panorâmica possibilidade, no comparativo com as currutelinhas pelas quais houvera passado no regresso amargo daqueles giros.
Saudade da saudade que escapole das minhas posturas. Saudade de divagar, de dizer besteira, de assistir à vida fluir como se sempre houvesse amanhã. Saudade de viver, com a deliberação do descompromisso, do estar acima das convenções, do se pôr alheio à linha da racionalidade.
Afinal, saudade da infância, da adolescência e da condição impagável de vivente, que essa brutal conseqüência de vida nos nega, sumariamente.
Paulo Chaves