Pessoa da minha mais alta estima provocou ontem o inevitável diálogo pós-eleitoral. Atento, ouvi sua explanação sobre Lula – de que realmente ele nasceu para brilhar, para ser grande, e que só uma pessoa, como ele, que já passou fome, sabe o que é amanhecer o dia e não ter o que comer. Que já dependeu de transporte público, de hospital público, e sabe bem o que é isso. Que este é o homem certo para o cargo, pois já foi preso, humilhado. Viveu sob salário curto, e literalmente comeu o pão que o diabo amassou. Não teve oportunidade de estudar. Foi retirante. É um homem muito inteligente, que deixou o mundo todo de boca aberta. E aquele blá-blá-blá que todo o mundo conhece bem.
Ao seu silêncio, afirmei: “Prá você ver o que não faz a mídia. Você caiu justinho no conto que o marketing eleitoral deles preparou para o povo desatento”.
Salientei que também já passei fome - graças a Deus por um período curtíssimo -, e nem por isso acho que esteja preparado para governar meu país. No máximo, aprendi a ser solidário, a respeitar os que têm fome, a repartir o pouco que tenho, quando possível; a ser generoso, compreender as atitudes dos mais fracos quando se rendem ao perfume traiçoeiro do ilícito, no afã de respostas rápidas, ou quando se curvam humildes à passagem dos que seu entendimento qualifica de graúdos.
Dependo de transporte público. Aqui e ali, da saúde pública. Sei o que é isso. Meu filho mais novo, ao contrário dos dois mais velhos, nasceu em maternidade pública. E pela bondade de Deus, teve a sorte de vir ao mundo pelas mãos de um homem digno, um médico competente, desses que nasceram para a profissão. Atencioso como são poucos na rede pública. Salve, salve Maurício Nogueira! Pois é, e quase não pude vir o moleque, sei lá por qual razão administrativa daquela maternidade. E em tempos ultra-bicudos, fui pelas madrugadas marcar lugar na fila, para garantir consulta a esse cidadãozinho, às vezes sem sucesso. E nem por isso, ainda me sinto capacitado a governar meu país...
Também já fui preso. Calma! Fui “depositário infiel”, numa ação da Justiça Federal. Dei uma máquina de escrever como reforço de penhora em questão de dívida ativa, ali inscrita por não haver pagado multas aplicadas por fiscais denodados da Delegacia do Ministério do Trabalho nos meus tempos esquecidos de patrão. Resultado: morava eu em Parnaíba, e numa noite vulgar me bateram à porta dois agentes da ex-briosa Polícia Federal, e me depositaram numa cela lamentável, e graças à infalível bondade de Deus sem qualquer companhia, da Penitenciária Mista da cidade, que é de Segurança Máxima, onde atravessei aquela noite de 30 de abril para 01 de maio de 1996. Ao amanhecer, policiais despachados diretamente de Teresina para a “missão” me trouxeram algemado até Campo Maior – aonde, penso eu, acordaram, e resolveram perguntar o que fiz para estar naquela “enrascada”, após o que viajamos como três bons amigos em férias.
Só depois de dois dias “engradeado”, soube que o total da dívida que, uma vez paga, me devolveria à liberdade, custou a metade da diária que os dois agentes receberam para ir ao litoral me “buscar”. E a nossa “Pátria Mãe Gentil” amargou o prejuízo de bem o quíntuplo da dívida ativa recebida. O Estado é uma graça!!! Burro, burro, burro... E eu, nem por isso, depois de humilhado, de ver o meu dinheiro de contribuinte se esvaindo pelo ralo devido à estupidez de juízes idiotas, como aquele gordinho de quem ri pra caramba, lá mesmo na sede da sua Justiça, me senti capacitado para governar o meu país.
Oportunidade de estudar? Tive sim. Abandonei a universidade, pública, porque quis. E isso também não me faz capacitado para governar meu país. Até porque nunca parei de estudar, e perseguir os melhores paideumas. Nada me foi imposto em termos de leitura. Ninguém, exceto o mundo, “fez” minha cabeça.
Diferentemente delle, nunca me “retirei” do Nordeste. Nem pretendo. E acho mesmo que isso não tem nada a ver com capacidade de governar um país.
Agora, falando da eleição, só fico meio assim porque essa rapaziada vai recorrer sempre à quantidade de votos que elle teve, para dizer que é a vontade do povo. E como se diz, a vontade do povo é a vontade de Deus. Não é verdade? E que por isso, elle pode fazer o que bem entender, porque está ungido pela vontade enlouquecida do povo. Será a de Deus?
George Washington disse bem que não se engana a todos durante todo o tempo. A capacidade de governar delle já é conhecida, e bem justificada pelo próprio, quando recorreu sempre ao “eu não sabia” para se eximir das coisas mais feias que um governo já patrocinou na história “deste país”. Quanto ao que fez de acerto, aliás soberba, senão única, obrigação de quem está à frente dos destinos de qualquer povo, não foi lá grande coisa, se bem analisada. Aquela maçaroca de números, sei não, mas se estivéssemos num país sério, uma bela auditoria viria a calhar. Mas, no Brasil, com a Justiça que temos? Vai sonhando...
Penso que deram a elle um cheque em branco. Vamos esperar um pouco para que tudo se repita. Aí, seguramente diremos apenas e tão somente que cada povo tem o governo que merece. Sabe por quê? Porque o brasileiro vota como quem vomita.
Além de não sair dali nada que preste, no outro dia esquece do que botou pra fora.
E que Deus, o eterno senhor recorrente das horas tristes e dolorosas, tenha piedade de nós. Aliás, vou ficar por aqui, pra deixar o homem trabalhar. O Homem Deus, pois não?
PS.: LÁZARO, MEU IRMÃO, IDOLO E PARCEIRO DO QUERIDO DELEGADO LUA, SÓ A LICENÇA POÉTICA PRÁ FAZER VOCÊ TIRAR ESSE BORDÃO PRÁ ELLE...