Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

14 outubro 2006

CHEGA DE IMPUNIDADE!

O bem, o zen e o mal

Glauco Fonseca

Depois de tanta bandalheira petista, depois de tanto roubo, de tanta mentira, sem exagero, é chegada a hora de pensarmos para quem vamos entregar as rédeas do país. Não estamos simplesmente vivendo uma disputa eleitoral, um embate político. Estamos diante de um acinte, de um desaforo, de um escárnio nacional.
Ao tomar conhecimento dos discursos absurdos proferidos por Lula, no período em que seus assessores fazem de conta que se afastam, que seu partido faz de conta que pune, na mesma quinzena em que seus ministros continuam a fazer molecagens institucionais, no mesmo mês em que aparece uma montanha de dinheiro ainda sem dono, chega-se à conclusão que estamos, por ora, diante de uma enorme disputa entre o bem e o mal.
Importante que se diga que o mal não é Lula, mas o descontrole de sua gestão, de seu partido, de seus “meninos”, o descalabro de seus gastos, a má gerência do que é público. O mal é a ausência quase que total de legalidade, de justiça, de moral. O mal é a falta de ética, ou pior ainda, a transfiguração da ética, a falta da honestidade genérica e particular. Pior ainda: o mal é a perspectiva de continuidade do próprio mal. A deturpação da ética tem como objetivo fazer-nos incapazes de diferenciar “alopramento” de crime, erro de incursão no código penal, imbecilidade de flagrante delito. Lula não é o mal personificado. É produto do mal, produto da evolução atribulada e mal estruturada de seus métodos e de seus agentes.
O bem, por sua vez, não é Alckmin nem um elemento sequer do PSDB em todos os tempos. O bem também não está no PFL, no PMDB ou em qualquer outro partido. O lado do bem a que me refiro somos todos nós, contribuintes, cidadãos comuns, hoje reféns da ausência saudosa de um regramento que releve o certo e que sancione o errado.
O bem e o mal, o governo de Lula e suas conseqüências versus nós todos os demais, atônitos, assustados com a proliferação da impunidade, precisam ser recolocados em seus devidos lugares.
Votarmos em Lula ou votarmos em Alckmin é pouco, quase nada. A solução não reside, tampouco, numa nova revolução, numa nova ditadura militar. A solução está em cada um de nós, na indignação de cada um de nós, na garganta de um a um de nós.
A derrota do mal, no entanto, deverá se iniciar pelas urnas. O PT precisa ser punido pela quadrilha que patrocina, pela gang que tolera e que assalta o país diariamente, diante de nossos olhos. Os culpados – e são muitos – devem ser expulsos, isto sim, de nossa confiança e punidos pela forma da lei. Temos que nos livrar, pelas urnas, deste mal que nos faz o PT, Lula e seus “meninos”.
A ressurreição do bem, ironicamente, terá de passar por Alckmin e seu partido nada casto. E o caminho é a urna.
O necessário e urgente movimento de controle do mal e de vigilância do bem deverá ser muito mais intenso a partir de 2007. Isto será o mais difícil porque requer bem mais do que simplesmente votar.
Irá requerer que nos façamos mais dignos, que nos ofertemos mais valor, que promovamos nossa estima própria antes de tudo.
Se conseguirmos vencer a barreira do voto, que é apenas um tênue começo, já teremos avançado bastante.

(Copiado da Internet)

13 outubro 2006

A IMAGEM QUE DÓI


A paisagem imposta, árida, não engessa nos olhos nada de novo, qualquer novidade. Gente aos montes cumprindo o doloroso ofício de prorrogar suas vidas, num manancial perpétuo de sofrimento e resistência. Para todos os lados a queixa banal da fome e da sede. Quando não, do abandono dos que gerenciam os âmbitos, porque castigo de Deus não é a esses cristãos inocentes. É um passamento, aliás, que ignora idade e credo, origem e cor, a abarcar crianças, malinando a todo instante no vazio das horas e no chafurdo da poeira, sem grandes esperanças; jovens, no aguardo da maturidade, deleitando-se na vadiagem geral, da escola para as mesas dos bares e conseqüências, sem certezas para o amanhã; senhoras e senhores, pais honestos, cutucando o pensamento à procura de forças para suportar o peso das obrigações, o cotidiano duro, a condução certa dos seus; idosos, a quem a fúria dos anos já não permite muito, a mais da consternação e das lágrimas.
É tudo tão igual nesse sertão brasileiro. O povo em degradação permanente, humilhado ora pela natureza inclemente, ora pela imprevidência humana, em desacordo flagrante com aquilo que se poderia esperar dessa condição racional que lha difere. Reparada por olhos urbanos, uma gente que precisa de tão pouco, e a quem se parece, sempre, faminta, sedenta, empobrecida, adoentada, pacientemente aguardando a ação tardia quando não da autoridade distante, dos caridosos que dela se apiedem. De perto, expõem uma realidade lamentável. Dolorosamente lamentável.
Recordo o Papa. Teresina, 1980: “Deus, o povo passa fome”. Em 2002, ao vivo, vi no meio desse mundo Piauí o povo. Sem comida, sem água, sem saúde, sem educação... Aliás, mudaram a lei: quanto mais estudante matriculado mais dinheiro entra no cofre público. Ainda assim não vai longe com seu estudo: esbarra na luta pela sobrevivência, sua e dos seus. Um contra-senso...
Pessoalmente assisti, estarrecido, a passividade da pobreza, que cala no espírito, na alma, no ânimo, qualquer gesto mais audacioso de sobreviver, e intimida, felizmente, as intenções da cura pela violência, ou seus tortuosos caminhos. Vi cidadãos, lídimos, reais, homens, cabras machos, suportando quietos e sem lágrimas o léu que lhe concedem. Ou a nulidade das suas existências. É como se nem vivessem – existem como se não existissem, calam como quem não sabe falar. Anulam-se em nome de nada (nada, na minha consideração modesta).
Desde o primeiro momento aquela imagem me comoveu. Buliu com meus sentimentos, conceitos, preconceitos, impressões. Questionei a vida e seus valores; a função dos homens e suas criações; a clemência de Deus, seus castigos e prêmios; a sorte de tantos. Não compreendi nada, não entendi nada. E a pergunta persiste: por que esse povo sofre tanto?
É impossível conceber a vida – para quem vive nas cidades grandes – sem o conforto da eletricidade, suas resultantes, sem a água abundante nas torneiras, sem as vantagens da modernidade. Isso tudo, tão banal, já incorporado à rotina, talvez furte de nós a suposição de que milhões de pessoas estão à margem principalmente do básico. E que precisam ser içados à condição humana, trazidos para vida, para a realidade, para os benefícios da cidadania, não pela beleza retórica das palavras gostosas de dizer, nas horas eleitorais, mas pela força das decisões, das determinações de alguma humanidade, do que recebe por nome a alcunha de bom-senso. (10.01.2003)

12 outubro 2006

De Passagem




E havia roupas, delas ainda inéditas nos passeios outros que não as missas fiéis pelas manhãs certas dos domingos de sol alegre. E sapatos seminovos, relógios velhos, parados por falta de pilha, pacotes mexidos de biscoitos, roupa suja e roupa lavada. Frascos de perfumes comuns, retratos amarelados nas paredes, um ar estranho de passado.
A cama feita, o crucifixo alinhado no verso da porta principal, a toalha seca no varal ínfimo, maracujás murchos esquecidos na bacia de plástico azul. O caneco de alumínio empenado, areado, brilhantemente. Algumas moedas e as notas parcas dum real difícil, parte final do aposento infeliz, findo na retaguarda da primeira quinzena, como de praxe.
Num canto qualquer da casinhola, a vassourinha de piaçava, decididamente desgastada, espera o serviço, em vão, assim como o molambo negro das esfregas vigorosas no chão trolhado, e o balde rude, o espanador de penas sintéticas, e o ror de pano entranqueirado, revalidado para o asseio das coisas menores: calçados, mobília, pias e similares.
As goteiras agudas enfileirando fachos de sol pelo chão e pelas coisinhas dali, quebravam a negrura ambiental, conquanto não tumultuassem a impressão abafada de tudo. A gatinha vira-latas lambendo suas partes, morta de preguiça, acomodada na frescura térmica do banheirinho funcional não transmitia sabença do acontecido.
Lá fora, na área menos quente, o pequeno amontoado e a proprietária ao centro. Apesar do calor arretado, era a única dentre os seis presentes que não transpirava, porque morta, conforme o dizia a dúzia de velas que queimavam teimando com o sopro acanhado de um vento desejado, infreqüente...
E de todas as frases comuns do evento, uma remetia os pensamentos a lugar-comum: coitada, tão jovem! A extinta, que cortara os setenta anos havia bom tempo, enganava mesmo, pela aparência, porque vivera tão pouco as distâncias, os prazeres e os momentos sociais da vida, que não se gastou, preservando-se, quem sabe, para a morte gloriosa, inteirona.

10 outubro 2006

SAUDADE

Praça da Garça


O Liceu.

Do planalto a vista alcança imponente a praça arfante, vaidosa, com seus bancos alvos, milimetrados, roçando o beiço branco do meio-fio, na espreita oposta ao chão torto da rua Barroso. Vindo, encolhe-se no traçado grave do seu patamar, amaneirando a carreira louca dos avexados inábeis que descem a Benjamin, e se permite expor às atenções dos tais a paisagem das garças cor de leite, à margem dum lago suposto, sem o artifício das águas aos seus pés, embora jorrante noutro formato, miméticas; ainda ali, um peitoril enorme, extenso, se dá ao debruçamento dos demais, mais atentos, que param e se deixam ficar horas tantas recostados a esse entorno.

Ladeados, casais informais confabulam. Confabulam e se beijam, uns mais que os outros, independentes. Os mais atirados escoram-se adiante, no arvoredo frondoso de anos sem conta, envergados, vai ver, pela freguesia das paixões audazes, por vezes estéreis.

A escadaria mansa, de degraus esparsos, bem metro e meio de entreposto, obrigam à adequação sutil do seu declive, como a sede que se abranda com goles suaves. E cada passo é um conjunto de sensações, lembranças, impressões.

Árvores gigantescas – acácias, palmeiras, carnaúbas, serão mesmo essas? – com seu sabor de saudade, puxam os pensamentos para as mesinhas de ontem dos botequins da Simplício Mendes, uns lá embaixo, noutro nível de piso e freqüência, onde se comia, bebia, jogava... Na praça, mesmo, o velho bar e seu abrigo, com as feições dos seus personagens impressas na sua arquitetura exclusiva; o ror de alunos, e também alunas, matando aula nas suas bancadas, ou apenas cumprindo sua parte no trato do encontro; alcoólatras perturbados com o tempo parado; bancários exaustos do expediente fazendo hora com suas cervejas. E o Boinha, criatura de Deus que o tempo comprova não fazer mal nem a si mesmo, desfilando sua ataraxia contagiante, incógnito respeito!

Da brisa amena chega ainda o cheiro bom de pão, egresso do punhado de portas azul-claro ali da rua da Estrela – Panificadora Roldão: pão recife enrolado em papel pardo... Não, não: papel lilás. Ah, não importa.

Mas agora não. Empresas, escritórios e lojas polarizadas onde se compra eletrônicos – de agulha de vitrola a microfone sem fio – compõem a estrutura das ruas, das casas, de tudo.

O pipoqueiro, a banca de revista, o picolezeiro. As sombras, os bancos poucos, a reforma restauradora. O Liceu acústico e o grito surdo dos seus meninos, o silêncio dos seus mestres, o cheiro do café torrado que já não existe mais, ali. O táxi avariado pela queda súbita da árvore secular, a maçonaria, as lojas de máquinas agrícolas. O negócio dos livros usados, o rumo do Mercado Central, da Casa Saló – de saudosa memória -, do Paraíba, das malhas, dos bancos, dos empreendimentos de fé, das outras praças, do Parnaíba. A batata frita,. O Senac, o Sebrae. A Lavanderia Modelo, o jogo do bicho, a ladeira do João Só...

O Liceu. Zacarias de Góis. A praça do Liceu. Landri Sales.

Ainda ontem era eu criança, correndo aos olhos de minha mãe ou seus cuidados, a praça longa.

Ainda está lá a praça, e até agora não lhe mostrei aos meus meninos.
(Paulo Chaves - 23.04.06)

09 outubro 2006

VALE A PENA LER

O post abaixo foi copiado do site do jornal Tribuna da Imprensa. As palavras do jornalista Reinaldo Azevedo, sem a menor dúvida, refletem a opinião de milhões de brasileiros, principalmente a minha, cansados de assistir aos deprimentes espetáculos de arrogância e autoritarismo, desse projeto de ditador que é o "semi-deus", na sua tentativa de se perpetuar no poder "deste país".
É um pouco longo, mas interessante.




Jornalista chama Lula de extravagente e incompetente
Fernando Sampaio

Ao fazer um diagnóstico do governo Lula, Reinaldo Azevedo, jornalista, articulista político e autor do livro "Contra o consenso", não teve dúvidas: trata-se de uma gestão "extravagante na teoria e incompetente na prática". Tamanha violência crítica poder parecer estranho nestes tempos em que, por mais enfraquecido que estejam o PT e o governo, nada parecer grudar no presidente.
Reinaldo é responsável por um dos blogs de jornalismo político de maior audiência da internet. O www.reinaldoazevedo.com.br rivaliza em importância com o de Ricardo Noblat. Concordando ou não com o jornalista, é impossível ficar indiferente às suas posições.
Logo na abertura do blog, conceito do escritor austríaco Robert Musil, tirado de "O homem sem qualidades", alerta o leitor desavisado: "Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem".
Ex-editor da revista "Primeira Leitura", Reinaldo define Lula como "profundamente ignorante", mas "de uma inteligência política rara. É um líder da esquerda atrasada latino-americana, hábil o bastante para se fingir de democrata. E o PT é seu instrumento".

TRIBUNA DA IMPRENSA - O que é esta crise política?

REINALDO AZEVEDO - A crise que está instalada se dá entre os grupamentos políticos que acatam a democracia como valor universal e como prática inegociável, condição para governança, e aqueles que a têm como meio meramente tático. O PT não é e nunca foi um partido democrático. Sua famosa "democracia interna", que nunca foi nada mais do que um arremedo do velho bolchevismo, sempre disfarçou a vocação profundamente autoritária. O PT passou 22 anos sendo sistematicamente contrário a tudo o que os sucessivos governos, tão diferentes entre si, propunham. Teve a estupidez de se opor ao Plano Real, que pôs fim ao imposto inflacionário e deu um rumo ao País, a despeito dos problemas. Quando FHC foi reeleito, no 19º dia de seu segundo mandato, o agora ministro Tarso Genro escreveu um artigo cobrando a sua renúncia e pedindo a realização de eleições gerais.
É o mesmo que agora, ridiculamente, vem falar numa concertação política. Ora, quem quer fazer concertação? O partido que, há pouco mais de duas semanas, tentou dar um golpe nas eleições. É preciso chamar as coisas pelo nome. A armação do dossiê fajuto foi para desmoralizar José Serra. O que eles pensaram? "Lula está reeleito e precisa reformar o Brasil. Mas a oposição terá um líder, chamado Serra. Precisamos desmoralizá-lo". Foi uma tentativa de governar sem oposição, uma vez que o Congresso também está desmoralizado por sucessivos escândalos.
A crise se dá porque existe um partido que pretende dar um "by pass" na democracia. E isso precisa ser denunciado e evidenciado. O PT acha que o Congresso atrapalha, que a oposição atrapalha. É sua vocação totalitária ganhando dimensão prática. O partido inaugurou o presente eterno na política. Age como se não tivesse passado, história. Aliás, faz o mesmo com terceiros. Veja só: transformou-se ou numa máquina de emporcalhar reputações ou numa lavanderia de biografias. É o caso de Sarney, tornado um herói da resistência por Lula e seus homens da mala preta. Já FHC, um democrata, é transformado no grande satã.

E os escândalos? São resultado da impunidade?

É um quadro desolador, que vai minando a confiança nas instituições brasileiras. Por que existem os escândalos? Porque o PT precisa deles. Não é que precise deles para governar. Precisa para executar o seu projeto. Ora, se eles querem transformar o Congresso numa casa irrelevante, qual é o caminho mais curto? Fechá-lo. Ocorre que Lula ainda não é ditador. Então, não pode fazê-lo. Se não pode cercar com tanques o Legislativo, então o PT manda comprar. O escândalo do mensalão é isto: uma tentativa de eliminar um dos Poderes da República.
O terceiro Poder, que é o Judiciário, como vimos, já está politizado o bastante, sob os auspícios e o estímulo do Poder Executivo. Não custa lembrar que, até outro dia, o Supremo Tribunal Federal era presidido por um então declarado candidato a vice-presidente de Lula. A operação não saiu exatamente como eles queriam. Mas Nelson Jobim, que é de quem estamos falando, confirmada a reeleição de Lula, é candidato a suceder Márcio Thomaz Bastos no Ministério da Justiça. É vergonhoso.

Defina o PT e seu papel nesta crise.

Acho que já o caracterizei até aqui. O PT é um partido de esquerda e, pois, autoritário. Esquerda democrática é uma ficção inventada por alguns espertinhos para pegar trouxa. Qual é a essência de um partido de esquerda? Achar que tem a chave do futuro e que todos aqueles que se opõem a seu projeto são passadistas, reacionários, descartáveis, não entendem o sentido da evolução da história e da humanidade. Isso não sou eu que digo. É teoria política escrita.
Gramsci, o teórico comunista italiano, num estudo que fez sobre Maquiavel, que está em "Cadernos do Cárcere", dizia que o príncipe atual, o "Moderno Príncipe", não é um homem, é o partido. O PT é gramsciano. Ele se quer este ente de razão que tudo pode, tudo sabe e tudo coordena. Gramsci dizia que o Moderno Príncipe haveria de subverter todos os princípios. E que tudo na sociedade se faria contra ou a favor o partido, de sorte que ele fosse um novo imperativo categórico.
De certo modo, estamos experimentando isso. A política brasileira passou a ter um único eixo: o PT. Há lideranças regionais aqui e ali, mas são marginais. As únicas forças que ainda resistem, e mal, porque fazem má política, são o PSDB e o PFL. Mas os dois partidos têm o terrível vício de subestimar o PT. O PFL porque não tem a devida unidade e ainda tem muitos caciques regionais. O PSDB por conta de uma certa soberba intelectual.
Então acontece o quê? O PT vai falando sozinho e ditando o ritmo e o rumo dos acontecimentos, embora tenha feito o governo mais corrupto de que se tem notícia. Quando se fala isso, eles perguntam: "qual o critério de comparação?" Qualquer um que se queira: quantidade de escândalos, valor envolvido nas tramóias e comprometimento das instituições com a lambança.
O PT tentou comprar uma fatia do Congresso. Isso não é pouca coisa. Comprar mesmo, com grana. Nem era aquela prática antiga, de trocar cargo por apoio. Isso é mais ou menos corriqueiro nas democracias do mundo. Pode-se fazê-lo com ou sem acordos programáticos, de princípio. Mesmo que seja um mero arranjo de circunstância, não se trata de um crime. Já pagar um deputado ou um senador em dinheiro vivo para obter apoio ou vantagem é crime. E muito grave.

E o governo Lula? Defina-o.

É um governo extravagante na teoria e incompetente na prática. O governo Lula conseguiu juntar o autoritarismo da esquerda com ortodoxia econômica sem imaginação. E deu nessa porcaria que aí está. Mesmo com a economia mundial vivendo um ciclo único no pós-guerra, de estabilidade duradoura, o País terá um crescimento médio, ao longo de quatro anos, de uns 2,8%, talvez menos. Com FHC, ao longo de oito, crescemos 2,33%, a despeito de sete crises, cinco delas com potencial para derrubar governos. Cadê o Lula virtuoso?
Não obstante, o País continua pagando juros reais escandalosos. Os juros reais nos EUA ou na União Européia não chegam a 1%. Aqui, chegam a quase 11%. É um escândalo. Em 2002, o País exportava a metade, o risco soberano era oito vezes maior, tínhamos problema de liquidez externa, e os juros reais eram de 11,2%.
Como pode isso? Pode! Lula amarrou-se ao setor financeiro, prometeu ser fiel a seus princípios e, com isso, conseguiu o apoio de partidos conservadores, de alguns usurpadores do liberalismo. O liberalismo brasileiro foi seqüestrado pelo financismo. É um governo conduzido por idiotas de esquerda, apoiados por idiotas de direita. Tanto uns quanto os outros estão atrás de benefícios por desapego a seus respectivos princípios. Uns querem poder, sempre mais, e outros, ganhar dinheiro. Uns rifam a sua ideologia para ter apoio dos antigos inimigos, e os antigos inimigos chamam de pragmatismo o que não passa de uma mera operação financeira.
Por que não apoiar Lula? Os títulos da dívida pública na sua mão rendem uma enormidade.
Esse mesmo governo que condena o País ao baixo crescimento e, portanto, à reprodução do ciclo da miséria, é o que transformou os programas assistencialistas que já havia numa monumental máquina eleitoral. Basta olhar a distribuição dos votos de Lula. Ele só ganha em dois cortes: Nordeste e entre os que têm rendimento de até dois salários mínimos. Quer dizer que é um governo dos pobres? Não! É um governo do "pobrismo", que é coisa bem diferente. Lula está cevando alguns milhões de cativos, que ficarão dependentes dos programas erroneamente chamados de "distribuição de renda". Não se distribui nada. Veja o que aconteceu com os salários médios no Brasil ao longo desses quatro anos. Foram achatados. Numa economia que cresce pouco, a classe média paga o pato, ameaçada pelo desemprego e pela substituição da mão-de-obra por quem ganha menos.
O que se chama de diminuição da desigualdade no Brasil é o empobrecimento da classe média, que perdeu qualquer chance de fazer uma poupança mínima ou de planejar o seu futuro. E o governo pega parte do que arrecada com sua carga tributária estúpida e converte em doação, sem contrapartida, aos muito pobres, em troca da fidelidade eleitoral. Quem está com fome quer comida? Quer. Mas há modos e modos de fazê-lo. Lula está transformando as potencialidades futuras do Brasil em consumo presente - se me permitem, o futuro do Brasil está virando cocô. Se esses pobres estivessem sendo capacitados para andar pelas próprias pernas, vá lá. Mas continuarão a compor a romaria de famélicos do ministro Patrus Ananias.

O Congresso naturalmente foi afetado, o que vem por aí?

Tivemos a pior legislatura da história, e, potencialmente, o que vem por aí não é muito melhor do ponto de vista da qualidade dos representantes. Há algumas leis moralizadoras, é verdade, como a que coíbe pagamento de extras na convocação extraordinária, a que institui o voto aberto para cassações - atenção: sou favorável ao voto aberto só nesse caso; nos demais, seria jogar o Legislativo no colo do Executivo. Uma reforma política que instituísse a fidelidade partidária e o voto distrital misto contribuiria para melhorar o Congresso. Mas que se destaque: o Executivo é muito forte no Brasil. Se ele se mostrar disposto a comprar, sempre vai haver alguém disposto a vender.

O presidente da OAB, Roberto Busato, diz que falta ética no Brasil. Falta?

Não é só ele que diz, não é? As pessoas falam em ética sem conceituá-la. O que é ética? É um conjunto de valores que diz respeito a uma coletividade, que é partilhado por um conjunto de pessoas, à diferença da moral, que é individual. Cada indivíduo tem a sua moralidade. Ora, é claro que os valores coletivos, que organizam a vida social e política, estão em crise no Brasil.
E se trata de uma crise particularmente grave porque liderada pelo partido que se dizia a encarnação da ética na política. Sempre que alguém vem com esse papo pra cima de mim, dou um jeito de escapar. "Ética na política" quer dizer exatamente o quê? Quem estabeleceu o tal valor como norma, como diretriz? A ética do PT não me interessa. Mas é a que eles têm a oferecer. Quando Marilena Chauí ou Wanderley Guilherme dos Santos deliram afirmando que há uma tentativa de golpe no Brasil, estão tentando nos impor a sua "ética".
Eles querem dizer o seguinte: tudo o que não serve ao poder petista é potencial e realmente ruim; é contrário à ética.
Temos uma crise de valores. Ela é ética? Acho que sim. Mas de qual ética estamos falando? Aquela que, entendo, deve servir a um Estado liberal e democrático. O petismo, por exemplo, não vive crise ética nenhuma. Eles são assim mesmo.

Dá para alertar a sociedade para que não fiquemos chocados depois?

Muito simples. Votar sempre contra o PT e seus aliados, objetivos ou subjetivos.

Quais medidas deveriam ser postas em prática para coibir esse estado de coisas?

Reforma política: fidelidade partidária, voto distrital misto, fim das emendas individuais ao Orçamento; reforma administrativa: redução drástica dos cargos de confiança; fim da estabilidade do funcionalismo;
reforma econômica: privatização de todas - note bem e escreva em caixa alta: DE TODAS - as estatais. Elas são a verdadeira fonte da corrupção no País; instituição do pregão eletrônico para compras do governo.




Como destrinchar as relações PT e o presidente Lula?

Não há o que destrinchar. Eles são uma coisa só. O fato de o eleitorado de Lula ser maior do que o do PT não quer dizer nada. Ele não existe sem o partido e vice-versa. É uma tolice imaginar que Lula é um ingênuo assombrado por bolcheviques meio malucos. Lula é profundamente ignorante, mas é de uma inteligência política rara. Ele é o representante do Foro de São Paulo, de que é fundador, no Brasil. É um líder da esquerda atrasada latino-americana, hábil o bastante pra se fingir de democrata. E o PT é seu instrumento.

Como o senhor define esse "dossiêgate" e seus atores?

Já defini. Foi uma tentativa de dar um golpe nas eleições.

E a Polícia Federal como um dos carros-chefe do marketing lulista? Como explicar isso?

Você usou a palavra certa. A parte da PF que Márcio Thomaz Bastos comanda se especializou em ameaçar donos de cervejaria e donas de butique. Foi uma forma de dizer que os ricos também arcam com o peso da lei no País. Houve arbitrariedade naquele espetáculo todo que foi promovido para encantar a mídia. Era coisa séria? Se fosse, Bastos teria ele mesmo divulgado as imagens da dinheirama do caso do dossiê fajuto. Não teria de ser furado por um jornal, como foi. O ministro da Justiça pôs uma instituição do Estado a serviço de um projeto político.

COPIADO DA TRIBUNA DA IMPRENSA

Crônicas

Femininas


Para isso servem as mulheres: para desiludir nossa solidão com a sinceridade das suas presenças; para encher de vida nossos sonhos; acudir, com a alegria do seu riso, o tormento infeliz da nossa tristeza.
Servem para erguer nossos olhos na pesquisa perdida d’alguma esperança, por mais que remota. E para provocar nossa reação no ato duma nova queda, erguendo, mais que corpos fortes sob o transe da fragilidade, almas alquebradas e espíritos destroçados.
Servem para despertar sabores, e odores, no fato certo do seu beijo, ou no ocasional medonho da sua recusa. Para enobrecer os lares, fazendo-os lares, incontestavelmente lares. Para iluminar os dias com o som gostoso do seu riso, enchendo de graça as tantas horas que por fim encurtam esses dias.
Servem para ilustrar poemas, e amenizar a rudeza dos tempos, volta e meia num descompasso pavoroso e chato. Para dar sentido às coisas, para justificar as coisas, fazer com que aconteçam. Para atestar o amor. Ou dar fé ao seu fausto.
Servem para completar e decidir. Para manifestar-se com a postura dos olhos, a expressão dos braços, a aparência do rosto. Para tornar branco mesmo o domingo mais vibrantemente vivo com a largura do seu sorriso franco e honesto. Para entristecer lua e estrelas com a ventura duma lágrima discreta vertida no resguardo indevassável dum lavabo ou no recôndito do seu mistério.
Servem para humanizar o mundo com a força da sua doçura. Para convencer aos abandonados da transitoriedade do seu instante. Para ser objetivo e destino, razão e desejo, sonho e dádiva, prêmio e fundamento. E para que todos tenhamos em quem nos apegar na passagem dos nossos pavores e receios.
Servem para esgotar a capacidade de pensar, tão infinda nos poetas, na tentação descontrolada da sua homenagem, e para desafiar os que se pensam capazes de consegui-lo sem palavras. Para divulgar o amor e sua valia; para desfazer o silêncio do silêncio, e para dar vida à vida.
Servem para descontrair a maçã hirta do rosto do tempo, desde o instante em que nascem, princesas que se tornam rainhas, e que ao morrerem legam aos homens a dor da solidão, sonhos sem cores, a tristeza impiedosa, o desamparo trágico, a desesperança, o desânimo, lares retorcidos, dias frios, tristes, silenciosos, longos como a tarde de sol em brasa, insuportável, sem rumo, azedo e sem brilho.
(PAULO CHAVES – 08.07.05)






Psicoterapia


Naquela manhã solene de agosto, não precisei pedir ao pássaro que cantasse, e preenchesse de alegria as horas solertes do meu tempo. Quando dei por mim ele já cantava sua melodia bela, e passeava no meu imaginário, freqüentando as árvores que criei no pensamento, conquanto não pudesse ir à rua, espiar a flora que supunha existir nos arredores.
Ao sair, no entanto, não vi pássaro algum. Nem árvores, nem silêncio. Ouvi claramente a gritaria nervosa dos carros, uns com sons mais graves, outros nada. Tranquei os ouvidos e me pus a velejar pensamentos entre os automóveis que se entendiam não sei como nas poucas ruas centrais da cidade.
Recobrei o pássaro na memória. Tornei a imaginar árvores frondosas, pés de algaroba, acácias, amendoeiras enormes, mangueiras improlíferas, por onde o meu pássaro firulava, espargindo alegria no povo lá abaixo à procura de sombra e encosto. Em recíproca, garotos sem alma e pontaria perseguiam-no, baladeiras em punho, pedras de fogo e petecas, com o sentido da perversidade temperando-lhes os olhos atentos, arregalados.
O pássaro? Esqueci por instantes, mo vexame de alcançar o ônibus, entregando sua sorte ao descuido de minha mente egoísta, urbana, até resgatá-lo, sim, com vida, da mira dos seus predadores. Ileso, ganhou o mundo em rasantes por sobre os mares, igual à gaivota luminosa, ruim de pesca, coitada, que outro dia apreciei da fila do banco.
Já meu pássaro, vez por outra ressurge, saliente, grato por jamais lhe abandonar à própria sorte, e canta pra mim, só pra mim, cantigas perfeitas como só um pássaro imaginário é capaz de fazê-lo.
(PAULO CHAVES – 16.02.05)

08 outubro 2006

As Novas

Sumiu

Cadê a oncinha com sede?


Guaribas

Alguém ainda lembra desse piloto do Fome Zero?


Irmã Dulce

E da vila gigante, a maior invasão da América Latina? Alguém lembra das promessas, desse palanquinho de início de governo, que trouxe ao Piauí todo o ministério do semi-deus? E daquele favelão lá do Recife?
Ah, e tem a Sudene, a ferrovia transnordestina, os platôs de Guadalupe, os tabuleiros litorâneiro, e por aí vai...


Repetindo

Das coisas que se aprende com a prática da vida, várias são absolutas. Dentre estas, de que polícia é para bandido.
Em assim sendo, o que é o PT e o Governo atual, que só vive envolvido com a Polícia?


Pressão

A turma que detém cargos executivos – prefeitos e governadores eleitos ou reeleitos -, opositora do PT, está passando por maus bocados. É que os governistas andam ameaçando retaliar, cortando os favores do poder público aos que não votarem nelle, o semi-deus, caso este se reeleja.
Aliás, isso não é pressão, é chantagem.
É mais ou menos o mesmo argumento que usam aqui no Piauí, dizendo que se o PSDB ganhar a eleição Wellington não poderá fazer nada pelo Estado, pois será boicotado em Brasília.

Tem abestado que acredita nisso.