SAUDADE
Praça da Garça
O Liceu.
O Liceu.
Do planalto a vista alcança imponente a praça arfante, vaidosa, com seus bancos alvos, milimetrados, roçando o beiço branco do meio-fio, na espreita oposta ao chão torto da rua Barroso. Vindo, encolhe-se no traçado grave do seu patamar, amaneirando a carreira louca dos avexados inábeis que descem a Benjamin, e se permite expor às atenções dos tais a paisagem das garças cor de leite, à margem dum lago suposto, sem o artifício das águas aos seus pés, embora jorrante noutro formato, miméticas; ainda ali, um peitoril enorme, extenso, se dá ao debruçamento dos demais, mais atentos, que param e se deixam ficar horas tantas recostados a esse entorno.
Ladeados, casais informais confabulam. Confabulam e se beijam, uns mais que os outros, independentes. Os mais atirados escoram-se adiante, no arvoredo frondoso de anos sem conta, envergados, vai ver, pela freguesia das paixões audazes, por vezes estéreis.
A escadaria mansa, de degraus esparsos, bem metro e meio de entreposto, obrigam à adequação sutil do seu declive, como a sede que se abranda com goles suaves. E cada passo é um conjunto de sensações, lembranças, impressões.
Árvores gigantescas – acácias, palmeiras, carnaúbas, serão mesmo essas? – com seu sabor de saudade, puxam os pensamentos para as mesinhas de ontem dos botequins da Simplício Mendes, uns lá embaixo, noutro nível de piso e freqüência, onde se comia, bebia, jogava... Na praça, mesmo, o velho bar e seu abrigo, com as feições dos seus personagens impressas na sua arquitetura exclusiva; o ror de alunos, e também alunas, matando aula nas suas bancadas, ou apenas cumprindo sua parte no trato do encontro; alcoólatras perturbados com o tempo parado; bancários exaustos do expediente fazendo hora com suas cervejas. E o Boinha, criatura de Deus que o tempo comprova não fazer mal nem a si mesmo, desfilando sua ataraxia contagiante, incógnito respeito!
Da brisa amena chega ainda o cheiro bom de pão, egresso do punhado de portas azul-claro ali da rua da Estrela – Panificadora Roldão: pão recife enrolado em papel pardo... Não, não: papel lilás. Ah, não importa.
Mas agora não. Empresas, escritórios e lojas polarizadas onde se compra eletrônicos – de agulha de vitrola a microfone sem fio – compõem a estrutura das ruas, das casas, de tudo.
O pipoqueiro, a banca de revista, o picolezeiro. As sombras, os bancos poucos, a reforma restauradora. O Liceu acústico e o grito surdo dos seus meninos, o silêncio dos seus mestres, o cheiro do café torrado que já não existe mais, ali. O táxi avariado pela queda súbita da árvore secular, a maçonaria, as lojas de máquinas agrícolas. O negócio dos livros usados, o rumo do Mercado Central, da Casa Saló – de saudosa memória -, do Paraíba, das malhas, dos bancos, dos empreendimentos de fé, das outras praças, do Parnaíba. A batata frita,. O Senac, o Sebrae. A Lavanderia Modelo, o jogo do bicho, a ladeira do João Só...
O Liceu. Zacarias de Góis. A praça do Liceu. Landri Sales.
Ainda ontem era eu criança, correndo aos olhos de minha mãe ou seus cuidados, a praça longa.
Ainda está lá a praça, e até agora não lhe mostrei aos meus meninos.
(Paulo Chaves - 23.04.06)

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