A IMAGEM QUE DÓI
A paisagem imposta, árida, não engessa nos olhos nada de novo, qualquer novidade. Gente aos montes cumprindo o doloroso ofício de prorrogar suas vidas, num manancial perpétuo de sofrimento e resistência. Para todos os lados a queixa banal da fome e da sede. Quando não, do abandono dos que gerenciam os âmbitos, porque castigo de Deus não é a esses cristãos inocentes. É um passamento, aliás, que ignora idade e credo, origem e cor, a abarcar crianças, malinando a todo instante no vazio das horas e no chafurdo da poeira, sem grandes esperanças; jovens, no aguardo da maturidade, deleitando-se na vadiagem geral, da escola para as mesas dos bares e conseqüências, sem certezas para o amanhã; senhoras e senhores, pais honestos, cutucando o pensamento à procura de forças para suportar o peso das obrigações, o cotidiano duro, a condução certa dos seus; idosos, a quem a fúria dos anos já não permite muito, a mais da consternação e das lágrimas.
É tudo tão igual nesse sertão brasileiro. O povo em degradação permanente, humilhado ora pela natureza inclemente, ora pela imprevidência humana, em desacordo flagrante com aquilo que se poderia esperar dessa condição racional que lha difere. Reparada por olhos urbanos, uma gente que precisa de tão pouco, e a quem se parece, sempre, faminta, sedenta, empobrecida, adoentada, pacientemente aguardando a ação tardia quando não da autoridade distante, dos caridosos que dela se apiedem. De perto, expõem uma realidade lamentável. Dolorosamente lamentável.
Recordo o Papa. Teresina, 1980: “Deus, o povo passa fome”. Em 2002, ao vivo, vi no meio desse mundo Piauí o povo. Sem comida, sem água, sem saúde, sem educação... Aliás, mudaram a lei: quanto mais estudante matriculado mais dinheiro entra no cofre público. Ainda assim não vai longe com seu estudo: esbarra na luta pela sobrevivência, sua e dos seus. Um contra-senso...
Pessoalmente assisti, estarrecido, a passividade da pobreza, que cala no espírito, na alma, no ânimo, qualquer gesto mais audacioso de sobreviver, e intimida, felizmente, as intenções da cura pela violência, ou seus tortuosos caminhos. Vi cidadãos, lídimos, reais, homens, cabras machos, suportando quietos e sem lágrimas o léu que lhe concedem. Ou a nulidade das suas existências. É como se nem vivessem – existem como se não existissem, calam como quem não sabe falar. Anulam-se em nome de nada (nada, na minha consideração modesta).
Desde o primeiro momento aquela imagem me comoveu. Buliu com meus sentimentos, conceitos, preconceitos, impressões. Questionei a vida e seus valores; a função dos homens e suas criações; a clemência de Deus, seus castigos e prêmios; a sorte de tantos. Não compreendi nada, não entendi nada. E a pergunta persiste: por que esse povo sofre tanto?
É impossível conceber a vida – para quem vive nas cidades grandes – sem o conforto da eletricidade, suas resultantes, sem a água abundante nas torneiras, sem as vantagens da modernidade. Isso tudo, tão banal, já incorporado à rotina, talvez furte de nós a suposição de que milhões de pessoas estão à margem principalmente do básico. E que precisam ser içados à condição humana, trazidos para vida, para a realidade, para os benefícios da cidadania, não pela beleza retórica das palavras gostosas de dizer, nas horas eleitorais, mas pela força das decisões, das determinações de alguma humanidade, do que recebe por nome a alcunha de bom-senso. (10.01.2003)

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