Paulo Chaves / BLOG

Comentários de notícias da imprensa, publicação de peças literárias (de minha autoria e de outros), palpites em quase tudo, sátiras e piadas, fotografias, indicação de sites e espaços da web, captação de comentários, etc.

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Local: Teresina, Piauí, Brazil

Jornalista, Publicitário, Editor e Escritor. No ramo desde 1979, a partir do extinto JORNAL DO PIAUÍ.

12 outubro 2006

De Passagem




E havia roupas, delas ainda inéditas nos passeios outros que não as missas fiéis pelas manhãs certas dos domingos de sol alegre. E sapatos seminovos, relógios velhos, parados por falta de pilha, pacotes mexidos de biscoitos, roupa suja e roupa lavada. Frascos de perfumes comuns, retratos amarelados nas paredes, um ar estranho de passado.
A cama feita, o crucifixo alinhado no verso da porta principal, a toalha seca no varal ínfimo, maracujás murchos esquecidos na bacia de plástico azul. O caneco de alumínio empenado, areado, brilhantemente. Algumas moedas e as notas parcas dum real difícil, parte final do aposento infeliz, findo na retaguarda da primeira quinzena, como de praxe.
Num canto qualquer da casinhola, a vassourinha de piaçava, decididamente desgastada, espera o serviço, em vão, assim como o molambo negro das esfregas vigorosas no chão trolhado, e o balde rude, o espanador de penas sintéticas, e o ror de pano entranqueirado, revalidado para o asseio das coisas menores: calçados, mobília, pias e similares.
As goteiras agudas enfileirando fachos de sol pelo chão e pelas coisinhas dali, quebravam a negrura ambiental, conquanto não tumultuassem a impressão abafada de tudo. A gatinha vira-latas lambendo suas partes, morta de preguiça, acomodada na frescura térmica do banheirinho funcional não transmitia sabença do acontecido.
Lá fora, na área menos quente, o pequeno amontoado e a proprietária ao centro. Apesar do calor arretado, era a única dentre os seis presentes que não transpirava, porque morta, conforme o dizia a dúzia de velas que queimavam teimando com o sopro acanhado de um vento desejado, infreqüente...
E de todas as frases comuns do evento, uma remetia os pensamentos a lugar-comum: coitada, tão jovem! A extinta, que cortara os setenta anos havia bom tempo, enganava mesmo, pela aparência, porque vivera tão pouco as distâncias, os prazeres e os momentos sociais da vida, que não se gastou, preservando-se, quem sabe, para a morte gloriosa, inteirona.